Seis em cada dez homicídios no Brasil não são solucionados

Estudo revela que 60% dos homicídios no Brasil ficam sem solução, com fatores como desigualdade e armas de fogo impactando a elucidação de crimes.

Seis em cada dez homicídios no Brasil não são solucionados

Apenas quatro em cada dez homicídios dolosos registrados no Brasil resultam em denúncia apresentada pelo Ministério Público até o final do ano seguinte ao crime. O percentual, que gira em torno de 40%, significa que cerca de seis em cada dez assassinatos no país ficam sem solução, de acordo com um estudo inédito do Instituto Sou da Paz. A pesquisa analisou indicadores dos 26 estados e do Distrito Federal, utilizando como referência os percentuais médios de esclarecimento de homicídios entre 2020 e 2023. Pela primeira vez, o levantamento buscou identificar quais fatores estão associados às diferenças de desempenho entre as unidades da federação.

O estudo aponta que estados com maior renda per capita, melhores índices de desenvolvimento humano (IDH), maior escolaridade e maior taxa de urbanização tendem a apresentar melhores resultados nas investigações. Em contrapartida, desigualdade social, desemprego, analfabetismo, homicídios de jovens e assassinatos cometidos com arma de fogo estão associados às menores taxas de esclarecimento.

Um dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a relação entre armas de fogo e a investigação. Estados com maior proporção de homicídios cometidos com armas de fogo tendem a esclarecer menos crimes. Além disso, mesmo quando solucionados, esses casos costumam demandar mais tempo e mais recursos para serem concluídos. Por outro lado, o levantamento identificou uma associação positiva entre o aumento das apreensões de armas de fogo e melhores taxas de esclarecimento de homicídios.

Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, destacou a importância de iniciativas voltadas à retirada de armas ilegais de circulação. Ela citou a criação de delegacias especializadas nesse tema, a integração de ações de inteligência e investigação, e o uso de instrumentos como o Sistema Nacional de Análise Balística (SINAB), que conecta crimes cometidos com a mesma arma. "Esse resultado reforça a importância de iniciativas voltadas à retirada de armas ilegais de circulação", afirmou.

Rafael Rocha, coordenador do estudo, explicou que a pesquisa buscou responder uma questão diferente das edições anteriores: entender os motivos por trás dos resultados superiores em alguns estados, e não apenas medir quantos homicídios eram esclarecidos. A pesquisa revelou que níveis elevados de violência não impedem, necessariamente, uma boa capacidade de investigação. Rondônia, por exemplo, registra uma taxa de homicídios superior à do Distrito Federal, mas consegue esclarecer cerca de 67% dos assassinatos. Estados como Mato Grosso, Sergipe e Paraíba também se destacaram por ampliar suas taxas de esclarecimento ao longo do tempo.

Os pesquisadores concluíram que o fortalecimento da perícia, a gestão baseada em indicadores, a integração entre as forças de segurança e a especialização das equipes de investigação são fatores associados a melhores taxas de esclarecimento, mesmo em locais que enfrentam altos índices de violência.