Misoginia Online: Memes e Piadas Disseminam Ódio Contra Mulheres

Estudo da UFBA revela que misoginia online migrou para memes e piadas, com ódio contra mulheres crescendo em plataformas como Telegram e YouTube, e preocupação com IA e exposição de imagens reais.

Misoginia Online: Memes e Piadas Disseminam Ódio Contra Mulheres

A misoginia na internet assumiu novas formas e linguagens, utilizando memes, montagens e piadas como principal veículo para disseminar o ódio contra mulheres. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) analisou 47.018 imagens e identificou que, em mais de 90% dos conteúdos classificados como misóginos, não havia material sexual explícito. Em vez disso, o discurso de ódio se manifesta por meio de termos pejorativos como "muié", "fêmea", "vadia", "vagabunda" e "prostituta", além de expressões da "machosfera" como "msol" (mães solteiras), "honradinha", "beta", "ginocentrismo" e "ginofascismo".

## Contexto e Estratégia do Discurso de Ódio

O conteúdo analisado ridiculariza mulheres, ataca o movimento feminista, questiona leis de proteção como a Maria da Penha e, em alguns casos, chega a incentivar a violência física. Dos materiais examinados, 2.896 imagens (6,2%) foram classificadas como misóginas, tornando esta a categoria de risco mais frequente na pesquisa, superando violência (3%), nudez (2,1%) e conteúdo sexual explícito (1,2%). Um dado alarmante é que 65,2% dessas imagens misóginas foram consideradas de intensidade alta ou extrema.

Leonardo Nascimento, cientista social computacional e coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da UFBA, explica que o humor é uma estratégia deliberada para ampliar o alcance desse conteúdo. "Eles procuram mascarar a violência como brincadeira. É uma estratégia extremamente recorrente em grupos radicalizados", afirma. Ele ressalta que a motivação desses grupos é um "profundo desprezo pelo feminino e pela própria mulher", com a sexualidade feminina também sendo tratada de forma negativa.

## Plataformas de Disseminação e Novas Táticas

O levantamento abrangeu imagens circuladas em 1.417 grupos e canais do Telegram entre novembro de 2020 e maio de 2026, totalizando cerca de 3,9 milhões de mensagens. Esses espaços funcionam como porta de entrada para jovens na cultura masculinista e como ambiente de comercialização de conteúdos voltados a esse público, com influenciadores vendendo produtos e serviços. Novos grupos surgem constantemente, enquanto outros ampliam a circulação desse material.

Embora o Telegram seja um centro de distribuição, o estudo aponta que o conteúdo se espalha para outras plataformas. Links compartilhados direcionam para YouTube (44%), outros grupos do Telegram (18%), Instagram (16%) e X (14%). O YouTube é utilizado para vídeos de influenciadores da "machosfera" e conteúdos antifeministas, enquanto o Instagram dissemina reels de curta duração.

## Preocupação com Conteúdo Gerado por IA e Exposição de Mulheres Reais

O estudo também detectou um aumento de conteúdos produzidos por inteligência artificial e a disseminação de capturas de tela de mulheres reais, muitas vezes divulgadas sem o consentimento delas por ex-companheiros ou conhecidos. Essas imagens são usadas para ridicularização pública nesses grupos, um tipo de conteúdo que tem gerado grande preocupação entre os pesquisadores. "Muitas vezes essas mulheres nem sabem que suas imagens estão circulando nesses locais", alerta Nascimento.

A pesquisa observou uma aceleração recente na circulação desse material: quase metade dos posts de imagem analisados foram publicados em 2025 e 23,5% no primeiro semestre de 2026. Isso indica que 70,5% do conteúdo concentrou-se nos últimos dois anos. No entanto, o coordenador do laboratório ressalta que ainda não é possível relacionar essa aceleração diretamente a processos eleitorais.