Médico real tem imagem clonada por IA para vender curas falsas
Médico tem imagem clonada por IA para divulgar curas falsas no YouTube. Canais usam deepfake para alarmar idosos, configurando crimes e gerando risco à saúde. Investigação policial está em andamento.

A imagem e identidade do otorrinolaringologista Hélio Brasileiro estão sendo utilizadas indevidamente por ao menos cinco canais no YouTube para a divulgação de informações médicas falsas e alarmistas. Sem sua autorização, sua imagem clonada por inteligência artificial (IA) aparece em vídeos que visam engajar a audiência, especialmente idosos, com promessas de curas milagrosas e alertas sobre perigos inexistentes. A prática, segundo especialistas e a polícia, pode configurar crimes como falsidade ideológica, falsa identidade, exercício ilegal da medicina, além de delitos cibernéticos e contra a honra.
Os canais identificados associam, por exemplo, banhos quentes a problemas cardíacos e recomendam tratamentos 'naturais' como substitutos para medicamentos prescritos por profissionais de saúde. Essa estratégia de disseminar desinformação médica com o uso de deepfakes tem como objetivo principal a monetização através de visualizações na plataforma de vídeos. Uma pesquisa da organização não governamental CTRL+Z revelou que canais que utilizam IA para falar sobre saúde acumulam mais de 70 milhões de visualizações.
## Rede de canais e conteúdo replicado
Evidências apontam que os canais que clonaram a identidade do Dr. Hélio Brasileiro podem ser operados por um mesmo indivíduo ou grupo. A semelhança nos títulos, roteiros e o período de criação das páginas reforçam essa suspeita. Um vídeo sobre 'quatro queijos que podem destruir sua saúde após os 60 anos', publicado em 22 de maio em um dos canais, foi replicado por outros três canais em dias subsequentes, com títulos e conteúdos idênticos. Esse padrão de reaproveitamento de conteúdo se estende a diversos outros temas, mapeados em pelo menos 20 canais diferentes.
## Denúncias e investigações em andamento
O próprio Hélio Brasileiro, que também é youtuber com um canal dedicado a informações médicas sem fake news, se surpreendeu ao ver sua imagem sendo usada de forma fraudulenta. Após a reportagem da BBC News Brasil alertar sobre o caso, ele registrou um boletim de ocorrência online na Polícia Civil de São Paulo. O caso foi encaminhado ao 3º DP de Sorocaba e está sendo investigado por falsidade ideológica, falsa identidade, falso alarme e tentativa de difamação. A delegada responsável destacou a gravidade da difusão de desinformação médica por simulação biométrica e o risco de automedicação para a população.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que diligências estão sendo realizadas para identificar os responsáveis. O YouTube, por sua vez, declarou que todo o conteúdo da plataforma, incluindo o gerado por IA, deve seguir suas diretrizes, com políticas específicas contra desinformação médica que possa causar danos graves no mundo real. A plataforma orientou o médico a cadastrar sua imagem para facilitar a identificação e remoção de conteúdos indevidos.