Estupros em MS: 23 mil vítimas em 10 anos, maioria crianças e adolescentes

Mato Grosso do Sul contabilizou 23.434 vítimas de estupro entre 2016 e 2026, com casos em todos os 79 municípios. Crianças e adolescentes são os mais afetados, e especialistas cobram ações de prevenção e articulação entre órgãos de proteção.

Estupros em MS: 23 mil vítimas em 10 anos, maioria crianças e adolescentes

Mato Grosso do Sul registrou um alarmante número de 23.434 vítimas de estupro entre 2016 e 2026, com ocorrências em todos os 79 municípios do estado. A média anual de 2.340 casos, ou 6,4 por dia, evidencia a gravidade e a capilaridade da violência sexual em território sul-mato-grossense. Crianças e adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis, com a maior concentração de vítimas nessa faixa etária.

## Crise se espalha por todo o estado

A análise dos dados, compilados pelo Monitor da Violência contra a Mulher a partir de informações da Sejusp e do Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul, revela que Campo Grande concentra o maior número absoluto de casos, com 7.164 vítimas, representando cerca de 30,6% do total estadual. Dourados, Três Lagoas, Corumbá e Ponta Porã seguem na lista, com 1.942, 977, 766 e 684 vítimas, respectivamente.

Especialistas, no entanto, ponderam que a concentração de casos na capital pode não significar, isoladamente, maior proporcionalidade de violência. Carolina Mendonça, psicóloga e professora da Uniderp, sugere que o volume em Campo Grande pode refletir tanto fatores urbanos como maior acesso e capilaridade dos serviços públicos, resultando em maior notificação. No interior, a violência pode estar mais oculta devido ao menor acesso a serviços especializados, isolamento geográfico e laços sociais mais próximos, que podem inibir denúncias.

## Falta de políticas preventivas e atuação reativa

Rafael Sampaio, advogado e professor de Direito, critica a abordagem atual, afirmando que o estado "corta os galhos, mas não trata o problema na raiz". Ele defende que os dados brutos devem ser o ponto de partida para análises criminológicas aprofundadas, mapeando quem são as vítimas e agressores, e onde os crimes ocorrem. Essa inteligência seria fundamental para direcionar políticas de prevenção eficazes e específicas para cada território.

O pico de registros ocorreu em 2023, com 2.638 casos, o maior número da série histórica. Embora os números tenham apresentado oscilações nos anos seguintes, a preocupação com a subnotificação e a necessidade de uma abordagem mais proativa e articulada entre os órgãos de proteção são unânimes. A capacitação de profissionais de saúde e educação para identificar e comunicar suspeitas, bem como a melhoria na articulação entre Conselho Tutelar, Ministério Público, Judiciário e assistência social, são apontadas como cruciais para romper o ciclo de violência.