Avião com 62 mortes não deveria ter decolado, aponta investigação
Relatório do Cenipa aponta que avião da Voepass com 62 mortes não deveria ter decolado devido a falhas no sistema de degelo e falta de certificação para operar em condições de gelo.

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) concluiu que a aeronave da Voepass que caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo, em agosto de 2024, matando 62 pessoas, não deveria ter decolado. O relatório final, apresentado em Brasília, aponta 19 fatores que contribuíram para o acidente, incluindo a inoperância do sistema de proteção contra acúmulo de gelo (Airframe De-Icing) e falhas na cultura organizacional da empresa.
## Falhas na Decolagem e Operação
Segundo o Cenipa, a aeronave, que realizava o trajeto entre Cascavel (PR) e o Aeroporto de Guarulhos (SP), foi liberada para voo mesmo com o sistema de degelo inoperante. A regulamentação impedia a decolagem caso houvesse previsão de chuva antes ou depois do voo, uma condição que, somada à pane do limpador de para-brisas, impedia a operação, conforme destacou o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador do caso. A falta de certificação para operar em condições de gelo severo, apesar de o acúmulo ter sido identificado como um fator crítico, também foi apontada. O sistema de climatização limitado também restringe a altitude de voo, justamente onde se concentrava o gelo.
## Erros da Tripulação e Cultura Corporativa
O relatório também detalha falhas por parte da tripulação. Investigadores apontam que os pilotos demoraram a reconhecer a degradação do desempenho da aeronave causada pelo acúmulo de gelo e não executaram os procedimentos para sair da área de formação severa e manter a velocidade mínima de segurança em tempo hábil. A análise de mais de 1.200 voos anteriores revelou uma prática sistêmica de não registrar panes no diário de bordo, com pilotos e mecânicos utilizando comunicações verbais para evitar que a aeronave fosse retida para manutenção. Há indícios de que os pilotos estavam em alta carga de trabalho, com parte da gravação de voz indicando conversas sobre assuntos pessoais durante o voo, o que pode ter levado à desatenção aos alertas críticos.
## Recomendações e Consequências
O Cenipa recomendou à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) a revisão dos processos de fiscalização e a garantia de que os checklists das empresas incluam o ajuste correto de velocidades mínimas para condições de gelo. O acidente, ocorrido em 9 de agosto de 2024, é o mais letal no Brasil desde 2007. Após o ocorrido, a Anac cassou a licença da Voepass, antiga Passaredo, não diretamente pelo acidente, mas pela incapacidade da empresa de corrigir falhas apontadas em fiscalizações anteriores. A Anac informou que analisará as conclusões e recomendações do Cenipa, ressaltando que as investigações têm caráter preventivo. A Voepass manifestou solidariedade às famílias e destacou seus mais de 30 anos de operações sem incidentes graves.