Ataques ao rosto: violência contra a mulher busca apagar identidade
Ataques ao rosto de mulheres em casos de violência de gênero buscam apagar a identidade das vítimas, alertam pesquisadores. Casos chocantes e subnotificação marcam a brutalidade.

A violência contra a mulher assume contornos cada vez mais brutais e simbólicos. Pesquisadores alertam que ataques direcionados ao rosto das vítimas em casos de agressão não visam apenas causar dor física, mas sim destruir a identidade e a imagem da mulher, deixando marcas permanentes e um trauma psicológico profundo. Essa tática, descrita como um esforço para apagar quem a vítima é, tem gerado preocupação e impulsionado discussões sobre a necessidade de medidas legais mais rigorosas.
## O objetivo de desfigurar a vítima
A força desproporcional utilizada em agressões que atingem o rosto vai além de um simples ato de ferir. A intenção, segundo especialistas, é desfigurar a vítima, tornando-a irreconhecível para si mesma e para a sociedade, minando sua autoestima e sua capacidade de seguir adiante. Esse tipo de violência deixa cicatrizes visíveis e invisíveis, que remetem constantemente ao trauma sofrido.
Um exemplo chocante dessa brutalidade é o caso de Alana Anísio Rosa, estudante de 20 anos em São Gonçalo (RJ). Mesmo sem qualquer vínculo com o agressor, ela foi atacada em sua própria casa. Luiz Felipe Sampaio, de 22 anos, invadiu a residência e desferiu 30 facadas contra ela, um ataque interrompido pela chegada da mãe da jovem. Alana sobreviveu após semanas em coma induzido, e a defesa busca a tipificação do crime como tentativa de feminicídio.
## Subnotificação e o impacto na Justiça
Um estudo realizado com usuárias do SUS na Grande São Paulo revelou um dado alarmante: embora 76% das mulheres tenham relatado ter sofrido alguma forma de violência (psicológica, física ou sexual), apenas 3,8% registraram formalmente as agressões em seus prontuários médicos. Essa subnotificação dificulta o mapeamento dos casos pelos órgãos de segurança e justiça, impedindo que muitas vítimas obtenham reparação.
Outro caso emblemático ocorreu em Santos (SP), onde a médica Samira Khouri, de 27 anos, foi brutalmente agredida pelo então namorado, o fisiculturista Pedro Camilo Garcia Castro. Após uma discussão, ele a agrediu com socos no rosto por seis minutos, mesmo após ela perder a consciência. Samira relata a dificuldade diária em lidar com as marcas deixadas e a sensação de não se reconhecer mais no espelho.
## Projetos de apoio e mudança na lei
Diante desse cenário, iniciativas como o Instituto Um Novo Olhar, em São Paulo, oferecem suporte integral às vítimas. O instituto, fundado pela médica Carla Góes, coordena uma rede de voluntários que disponibiliza tratamentos gratuitos de reconstrução facial, apoio psiquiátrico, psicológico e orientação jurídica. O serviço já auxiliou mulheres como Cristiane Gomes, que sofreu um disparo no rosto há oito anos, e hoje usa sua experiência para conscientizar outras vítimas.
Paralelamente, tramita um projeto de lei que propõe aumentar a pena para lesões corporais na face e no pescoço, reconhecendo a gravidade e o impacto psicológico dessas agressões. A proposta visa endurecer as punições para crimes que visam desfigurar e apagar a identidade das mulheres, buscando oferecer maior proteção e justiça às vítimas de violência de gênero.