Agressões Faciais: Violência de Gênero Visa Apagar Identidade das Mulheres

Agressões ao rosto de mulheres em casos de violência de gênero buscam apagar suas identidades. Pesquisadores e vítimas relatam traumas e sequelas. Projetos buscam apoio e endurecimento de penas.

Agressões Faciais: Violência de Gênero Visa Apagar Identidade das Mulheres

A violência contra a mulher tem apresentado contornos ainda mais cruéis e simbólicos. Pesquisadores apontam que agressões direcionadas ao rosto das vítimas não visam apenas causar dor física, mas sim destruir a identidade e a imagem da mulher, utilizando uma força desproporcional.

Este cenário alarmante é evidenciado por casos recentes que ganharam repercussão. Alana Anísio Rosa, estudante de 20 anos de São Gonçalo (RJ), foi vítima de uma tentativa de homicídio em sua própria residência, mesmo sem ter qualquer vínculo com o agressor. Luiz Felipe Sampaio, de 22 anos, que a observava de longe, invadiu sua casa e a atacou com uma faca, desferindo 30 golpes. A intervenção da mãe de Alana impediu um desfecho fatal. O caso segue em disputa judicial para ser tipificado como tentativa de feminicídio.

Outro exemplo chocante é o da médica Samira Khouri, de 27 anos, em Santos (SP). Durante uma viagem a São Paulo, ela foi brutalmente agredida pelo então namorado, Pedro Camilo Garcia Castro, de 24 anos. Após uma discussão, ele a agrediu com socos no rosto por seis minutos, mesmo após ela perder a consciência. O agressor chegou a quebrar a própria mão pela intensidade dos golpes. Samira relata as dificuldades diárias em lidar com as sequelas, afirmando que a imagem refletida no espelho não a representa mais.

## Subnotificação e Impacto Duradouro

Estudos indicam a gravidade da subnotificação desses crimes. Uma pesquisa realizada na Grande São Paulo com mais de 3.000 mulheres revelou que, embora 76% delas tenham relatado violência psicológica, física ou sexual, apenas 3,8% tiveram a agressão formalizada em seus prontuários médicos. Isso demonstra uma lacuna significativa entre os episódios de violência e o registro formal, dificultando o acesso à Justiça.

As marcas físicas no rosto impõem às vítimas uma lembrança constante do trauma. Para além das cicatrizes visíveis, o impacto psicológico é profundo, alterando a autoimagem e a confiança.

## Projetos de Apoio e Alterações Legais

Diante deste quadro, iniciativas buscam oferecer suporte integral às sobreviventes. Em São Paulo, o Instituto Um Novo Olhar, fundado pela médica Carla Góes, coordena uma rede de voluntários que disponibiliza tratamentos gratuitos de reconstrução facial, apoio psiquiátrico, psicológico, jurídico e social. O instituto é parceiro do Hospital das Clínicas de São Paulo, que abriga o primeiro ambulatório de psiquiatria voltado para mulheres e seus filhos.

Cristiane Gomes, que sobreviveu a um tiro no rosto há oito anos, é uma das beneficiadas pela rede de apoio. Após seu processo de recuperação, ela utiliza as redes sociais para conscientizar e amparar outras mulheres. Tanto ela quanto Silvana, outra vítima que optou por não revelar a identidade do agressor por segurança, tiveram seus ex-companheiros condenados por tentativa de feminicídio.

Paralelamente, tramita um projeto de lei que propõe o aumento da pena para lesões corporais na face e no pescoço, buscando dar um respaldo legal mais robusto a esses crimes que visam apagar a identidade das mulheres.