Testosterona: Por que o hormônio pode não entregar força e músculos?

Especialistas explicam por que a testosterona pode não aumentar força ou músculos, citando uso indiscriminado, falta de necessidade, fatores genéticos e outros problemas de saúde como causas.

Testosterona: Por que o hormônio pode não entregar força e músculos?

A testosterona, frequentemente promovida como um atalho para o aumento de força, energia e massa muscular, tem se tornado uma obsessão popular, especialmente nas redes sociais. Recentemente, o Exército dos Estados Unidos anunciou que passará a monitorar os níveis do hormônio em soldados com mais de 30 anos e a incentivar a reposição hormonal. No entanto, especialistas alertam que o uso do hormônio, seja por cápsulas, géis, adesivos ou injeções, nem sempre entrega os resultados esperados.

## Uso Indiscriminado e Falta de Necessidade

Um dos principais motivos para a falta de resultados perceptíveis com o uso da testosterona é, paradoxalmente, a ausência de necessidade. Segundo o professor Bruno Gualano, da Universidade de São Paulo, não há uma base científica para medir rotineiramente os níveis de testosterona em toda a população, como o Exército americano pretende fazer. Essa prática é endossada pelo endocrinologista Clayton Macedo, da Unifesp, que afirma que nenhuma sociedade médica recomenda essa triagem indiscriminada. Ele alerta que isso pode levar à identificação de pessoas saudáveis com níveis limítrofes, resultando em prescrições inadequadas. "A testosterona, por interesses mercadológicos, tem sido vendida como solução para inúmeros problemas que, na maioria das vezes, não têm relação com esse hormônio", observa Macedo, citando exemplos como cansaço, baixa libido, ou o desejo de emagrecer e ganhar músculo.

## Fatores que Interferem na Eficácia

Os especialistas ressaltam que, antes de qualquer tratamento, é fundamental identificar a causa real dos sintomas. Por exemplo, na obesidade, há uma maior conversão de testosterona em gordura, mas o tratamento adequado é o emagrecimento, não a reposição hormonal. A reposição só é indicada quando a queda da testosterona não está ligada a fatores reversíveis. Mesmo nesses casos, o objetivo do tratamento não é proporcionar um desempenho extraordinário, mas sim normalizar os níveis do hormônio para recuperar força, massa muscular e vitalidade semelhantes às de uma pessoa com produção normal, e não acima do normal.

## Receptores Hormonais e Genética

Outro fator crucial é que a simples presença de testosterona no sangue não garante seus efeitos. O hormônio precisa se ligar ao receptor de andrógeno, uma proteína presente em diversos tecidos. Variações genéticas na sensibilidade desses receptores fazem com que pessoas com níveis semelhantes de testosterona respondam de maneiras distintas. Assim, quem tem menos testosterona pode, em alguns casos, aproveitar melhor sua ação do que alguém com níveis mais altos. Além disso, a baixa vitalidade nem sempre é causada pela falta do hormônio; fatores como o esgotamento físico e mental devido às exigências da vida moderna também podem ser a causa, e o tratamento adequado seria, nesses casos, gerenciar o estresse e o ritmo de vida.

## Riscos e Contraindicações

O uso de testosterona sem indicação médica ou acompanhamento especializado, em doses inadequadas, ou quando há condições de saúde preexistentes, pode ter efeitos limitados e até ser contraindicado. Os benefícios do hormônio raramente superam os riscos potenciais. A decisão de iniciar uma terapia de reposição hormonal deve ser sempre baseada em uma avaliação médica criteriosa, considerando a saúde geral do indivíduo e a real necessidade do tratamento.