Teste do Pezinho: Falhas no Acesso Deixam Bebês em Risco de Sequela

Falhas no acesso ao teste do pezinho no Brasil expõem bebês a sequelas irreversíveis de doenças graves. Desigualdades regionais comprometem a triagem neonatal e o desenvolvimento infantil.

Teste do Pezinho: Falhas no Acesso Deixam Bebês em Risco de Sequela

A ausência de acesso universal ao teste do pezinho, um exame crucial para a triagem neonatal no Brasil, está colocando em risco o futuro de milhares de recém-nascidos. A falha na implementação completa do programa expõe crianças a sequelas irreversíveis de doenças graves, como a fenilcetonúria, que poderiam ser evitadas com diagnóstico e tratamento precoces.

O caso de Laura Dias, 32 anos, moradora do interior da Bahia, ilustra dramaticamente as consequências de um diagnóstico tardio. Nascida na década de 1990, quando o teste do pezinho ainda engatinhava no país, Laura não teve o exame solicitado ao nascer. A fenilcetonúria, doença que afeta o metabolismo de um aminoácido, só foi identificada quando ela tinha cerca de cinco anos, após sua mãe notar atrasos significativos no desenvolvimento. O resultado foi a deficiência intelectual, impedindo sua alfabetização e tornando-a dependente de cuidados familiares na vida adulta.

Em contraste, sua irmã mais nova, Ana Luiza, 16 anos, teve um destino diferente. Nascida em São Paulo, ela realizou o teste do pezinho logo após o nascimento, o que permitiu um diagnóstico e tratamento imediatos para a mesma condição. Ana Luiza não desenvolveu deficiência intelectual e segue uma vida ativa, com estudos e atividades extracurriculares.

## Desigualdades Regionais Preocupam

O Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN) abrange seis doenças básicas pelo SUS, incluindo fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, doença falciforme, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita e deficiência de biotinidase. Contudo, a cobertura nacional média de 87% dos nascidos vivos esconde disparidades regionais alarmantes. Segundo o Ministério da Saúde, a região Sul lidera com 92% de cobertura, enquanto Norte e Nordeste apresentam os índices mais baixos, com 75% e 79%, respectivamente. O Sudeste registra 85,45% e o Centro-Oeste, 80,14%.

Francis Galera, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Triagem Neonatal e Erros Inatos do Metabolismo (Sbteim), aponta que a desigualdade na implementação do programa, especialmente em regiões mais afastadas dos grandes centros, dificulta o acesso à coleta e aos exames confirmatórios. Ele também ressalta que os dados oficiais podem não refletir completamente a realidade do atendimento, pois as informações enviadas pelos estados ao ministério nem sempre correspondem à assistência prestada.

## Doenças e Impactos Irreversíveis

A fenilcetonúria, quando não detectada precocemente, leva ao acúmulo de fenilalanina no organismo, causando lesões neurológicas irreversíveis, como deficiência intelectual, convulsões e atrasos no desenvolvimento. No caso da hiperplasia adrenal congênita, o diagnóstico tardio pode levar à morte por desidratação grave nos primeiros dias de vida do recém-nascido.

Apesar dos avanços na medicina e na expansão do programa, a falta de acesso equitativo ao teste do pezinho no Brasil continua sendo um obstáculo crítico para a saúde infantil, perpetuando realidades distintas para crianças que enfrentam as mesmas condições genéticas.