Pneumonia: Periferias de SP registram mais mortes infantis

Estudo em São Paulo revela que mortes por pneumonia em crianças e adolescentes concentram-se nas periferias, ligadas à desigualdade social e ambiente urbano, enquanto internações ocorrem em toda a cidade.

Pneumonia: Periferias de SP registram mais mortes infantis

Um estudo recente sobre pneumonia em crianças e adolescentes na cidade de São Paulo, analisando dados de 2010 a 2020, aponta um preocupante contraste: enquanto as internações pela doença se distribuem por praticamente toda a capital, as mortes concentram-se nas regiões mais pobres e vulneráveis. A pesquisa, publicada na Revista Paulista de Pediatria, sugere que as desigualdades sociais, as condições de moradia e o ambiente urbano exercem uma influência maior no risco de falecimento do que no de adoecer.

Ao avaliar os 96 distritos administrativos de São Paulo durante uma década, foram registrados 1.486 óbitos e 156.112 internações por pneumonia em menores de 19 anos. Embora a incidência de ambos os desfechos tenha diminuído ao longo dos anos, a queda não foi uniforme. As hospitalizações ocorreram em diversas áreas, incluindo bairros de alta renda como Morumbi e Jardim Paulista, mas as fatalidades se concentraram em especial na zona leste e no extremo norte da cidade.

William Cabral, coordenador do Núcleo de Geoprocessamento e Ciência de Dados do Instituto Pensi e um dos autores do estudo, destacou que o objetivo era analisar a distribuição territorial das internações e mortes. "Já sabíamos, por pesquisas anteriores, que praticamente todas as doenças seguem um padrão de piora nas áreas mais afastadas do centro, nas periferias. Infelizmente, esse é um padrão esperado. Queríamos entender se isso também acontecia com a pneumonia", explicou Cabral.

## Fatores de Risco e Desigualdade

Para identificar as áreas de maior risco, os pesquisadores empregaram técnicas de geoprocessamento, estimando o risco relativo de internações e mortes em cada distrito. Os resultados indicaram que distritos com menor pontuação no GeoSES – um índice que considera renda, escolaridade, pobreza, mobilidade e acesso a recursos – apresentaram um risco relativo de morte por pneumonia cerca de 75% maior do que o esperado. Em contrapartida, bairros com melhores indicadores socioeconômicos tiveram um risco aproximadamente 45% menor.

A análise também buscou fatores ambientais que pudessem explicar essa disparidade. A presença de vias de trânsito rápido foi associada a um maior risco de morte. "Distritos que registraram mais mortes também tinham maior quilometragem de vias de trânsito rápido. Como este é um estudo ecológico, não podemos estabelecer uma relação de causa e efeito. Apenas mostramos que essas características coexistem no mesmo território", ressaltou Cabral. A equipe utilizou a extensão de rodovias e vias expressas como um indicador indireto da exposição a poluentes ao longo do período estudado, embora o trabalho não estabeleça uma ligação direta de causa e efeito.

## Implicações e Contexto

Esses achados reforçam a conhecida influência das desigualdades sociais nos desfechos de saúde. A pneumonia, uma infecção respiratória comum, pode se tornar grave e fatal, especialmente em populações vulneráveis. A concentração de mortes em áreas periféricas, associada a fatores como menor acesso a serviços de saúde de qualidade, condições de moradia precárias e, possivelmente, maior exposição à poluição, agrava o quadro.

O estudo também observou uma peculiaridade: distritos com melhores indicadores sociais registraram mais internações. Isso pode sugerir que, nesses locais, as crianças têm maior acesso a diagnósticos e cuidados médicos, resultando em mais hospitalizações, mas com menor letalidade. Em contraste, nas periferias, a dificuldade de acesso pode levar a diagnósticos tardios e a um agravamento da doença antes mesmo da internação, elevando a taxa de mortalidade.

A pesquisa reforça a necessidade de políticas públicas voltadas para a redução das desigualdades sociais e a melhoria das condições de vida nas áreas mais vulneráveis da cidade, com foco em prevenção e acesso equitativo à saúde. A vacinação contra o pneumococo, importante agente causador da pneumonia, continua sendo uma ferramenta fundamental nesse combate.