Governo prorroga vacina contra HPV e busca reverter baixa cobertura

Governo prorroga campanha de vacinação contra HPV para jovens de 15 a 19 anos até dezembro. Meta de 90% está distante, com desafios de desinformação, hesitação parental e desigualdades regionais e de gênero.

Governo prorroga vacina contra HPV e busca reverter baixa cobertura

O Ministério da Saúde decidiu estender até dezembro a campanha de vacinação contra o HPV (papilomavírus humano), conhecida como estratégia de “resgate”. A iniciativa tem como objetivo alcançar adolescentes e jovens entre 15 e 19 anos que não foram imunizados na faixa etária recomendada, que vai dos 9 aos 14 anos. Esta é a segunda vez que o prazo é prorrogado, originalmente previsto para terminar no primeiro semestre deste ano, após uma primeira extensão de dezembro de 2025.

Até o momento, aproximadamente 300 mil pessoas nesta faixa etária foram vacinadas. Contudo, o Brasil ainda está distante da meta estabelecida pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), que visa cobrir 90% do público-alvo. Em 2025, último ano com dados consolidados, a cobertura vacinal atingiu 80,26%, o melhor índice registrado até então, mas ainda assim quase dez pontos percentuais abaixo do objetivo. A cobertura tem apresentado crescimento contínuo desde 2021, quando registrava 59,7%, passando por 61,92% em 2022, 70,53% em 2023, e 75,49% em 2024.

## Desigualdades na Imunização

Apesar do avanço, atingir a meta nacional de 90% de cobertura pode mascarar disparidades significativas dentro do país. Especialistas alertam que grupos específicos podem ficar para trás, demorando mais para alcançar os mesmos níveis de imunização. Fernando Wehrmeister, professor de epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), destaca que a média nacional de 90% é positiva, mas não reflete a realidade de populações com menor escolaridade, por exemplo, que enfrentam maiores dificuldades de acesso e adesão.

A diferença de cobertura entre os sexos também é um ponto de atenção. Em 2025, a taxa entre meninas foi de 86,22%, enquanto entre os meninos o índice ficou em apenas 74,55%, uma lacuna de quase 12 pontos percentuais e mais de 15 pontos abaixo da meta. Essa defasagem é comum em outros países e está historicamente ligada à concepção inicial da vacina, desenvolvida prioritariamente para a prevenção do câncer de colo de útero. Embora pesquisas posteriores tenham comprovado a eficácia contra outros tipos de câncer e verrugas genitais em homens, a percepção pública demorou a acompanhar o avanço científico.

## Barreiras e Desinformação

Outros fatores contribuem para os desafios na vacinação. Adolescentes, que não têm acesso regular a serviços de saúde, dependem dos pais para serem vacinados, o que pode levar à recusa, especialmente na faixa etária mais jovem (9 a 10 anos). Mitos sobre a vacina estimular o início da vida sexual ou a ideia de que crianças são muito novas para vacinas contra ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) ainda persistem. A baixa percepção de risco, devido à natureza silenciosa da infecção pelo HPV, que pode levar anos para se manifestar, também retira o senso de urgência.

A desinformação, amplificada pelas redes sociais, é outro obstáculo considerável. Estudos apontam hesitação parental motivada por medo de eventos adversos (embora a vacina seja considerada segura), desconhecimento sobre o vírus e suas doenças, percepção de idade inadequada e falta de recomendação médica. Curiosamente, famílias de melhor condição socioeconômica também demonstram hesitação deliberada em alguns casos, contrariando a tendência histórica de alta adesão à vacinação no Brasil.

Geograficamente, as disparidades regionais são evidentes. Em 2024, enquanto a média nacional de cobertura entre meninas de 9 a 14 anos foi de 83%, apenas oito estados e o Distrito Federal alcançaram a meta de 90%. Regiões como o Sul apresentaram 93,6% de cobertura, em contraste com o Nordeste, que registrou 77,3%, uma diferença de 16 pontos percentuais.