Câncer de Pulmão: SUS oferece sobrevida menor que rede privada

Estudos revelam que pacientes com câncer de pulmão no SUS têm sobrevida significativamente menor (1,8 ano) que na rede privada (5,8 anos), devido a diagnósticos tardios e dificuldade de acesso a tratamentos específicos.

Câncer de Pulmão: SUS oferece sobrevida menor que rede privada

Pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas, especificamente aqueles com alteração no gene ALK em estágio avançado ou metastático, enfrentam uma dura realidade de desigualdade no Brasil. Dois estudos brasileiros recentes, publicados na JCO Global Oncology, revelam que a sobrevida média no Sistema Único de Saúde (SUS) é significativamente menor quando comparada à rede privada.

Enquanto pacientes no sistema público vivem em média 1,8 ano após o diagnóstico, aqueles atendidos na rede privada alcançam uma sobrevida de 5,8 anos. Essa disparidade é atribuída, em parte, ao fato de que entre 85% e 93% dos pacientes com câncer de pulmão no SUS já se encontram em estágios avançados da doença no momento do diagnóstico, o que compromete as chances de cura, segundo relatórios da Conitec.

## Acesso a Terapias e Diagnóstico

Embora o governo já tenha incorporado terapias-alvo consideradas eficazes para esses casos, os estudos indicam que tanto o teste genético para identificar a alteração no gene ALK quanto os medicamentos necessários não chegam à maioria dos pacientes. A alteração no gene ALK, presente em cerca de 3,2% dos casos de câncer de pulmão de células não pequenas, acomete frequentemente indivíduos mais jovens e não fumantes, na faixa dos 50 anos.

O Ministério da Saúde reconheceu a indisponibilidade do brigatinibe, um dos medicamentos essenciais para o tratamento, afirmando que 23 medicamentos oncológicos de alto custo, incluindo este, serão disponibilizados gradualmente a partir de outubro. A pasta estima um investimento total de R$ 2,2 bilhões, o que representaria um aumento de 35% na oferta de fármacos no SUS, beneficiando mais de 112 mil pacientes e solucionando pendências que, em alguns casos, chegavam a 12 anos.

## Desafios Regionais e Perspectivas

Em relação ao exame de imunohistoquímica para ALK, o Ministério da Saúde admite a existência de disparidades regionais, pois sua oferta depende da estrutura de oncologia de cada estado e município. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta cerca de 35.380 novos casos de câncer de pulmão anualmente entre 2026 e 2028. O câncer de pulmão de células não pequenas representa aproximadamente 85% dos diagnósticos.

Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia, ressalta que, com o diagnóstico em fase avançada, muitos pacientes perdem a possibilidade de tratamento curativo, tornando o foco em oferecer qualidade de vida. As terapias-alvo, que atuam bloqueando alterações genéticas específicas que impulsionam o crescimento tumoral, oferecem respostas mais duradouras e melhor controle da doença, inclusive contra metástases cerebrais, sendo uma alternativa oral mais tolerável que a quimioterapia.

Os dados dos estudos são contundentes: em uma análise de 101 pacientes, a sobrevida global foi de 5,8 anos no sistema privado contra 1,8 ano no SUS. No tratamento no SUS, apenas 22,2% dos pacientes receberam inibidores de ALK como primeira linha, comparado a 53,9% na rede privada.

Um levantamento com 156 oncologistas brasileiros confirmou que a quimioterapia ainda é a abordagem predominante no SUS como tratamento de primeira linha.