Ansiedade em Jovens: Internações por Saúde Mental Disparam 860%

Internações por ansiedade entre adolescentes brasileiros cresceram 860% em 9 anos. Especialistas alertam para a falta de acolhimento, pressão social e a influência de histórias familiares.

Ansiedade em Jovens: Internações por Saúde Mental Disparam 860%

A saúde mental de adolescentes brasileiros tem sido um ponto de crescente preocupação para especialistas. Um estudo recente do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) trouxe à tona um dado alarmante: as internações por ansiedade nessa faixa etária registraram um salto de 860% entre 2015 e 2024. A taxa passou de 1 para cada 100 mil jovens para 9,6 por 100 mil, um aumento expressivo que reflete um sofrimento emocional em ascensão e os desafios enfrentados por uma geração sob intensa pressão.

## Desafios no Acolhimento e Reconhecimento

A terapeuta e pesquisadora Adriana Braz de Oliveira aponta que o agravamento dos quadros de ansiedade em jovens é um indicativo de uma sociedade que ainda luta para reconhecer e acolher o sofrimento psíquico de seus adolescentes. "Quando um adolescente chega ao ponto de precisar ser internado por ansiedade, é porque muita coisa já vinha acontecendo antes, mas em silêncio", explica. Frequentemente, sentimentos de angústia e insegurança são minimizados, vistos como "exagero" ou "coisa da idade", dificultando o acesso à ajuda.

Fatores como a pressão por desempenho acadêmico, a exposição constante às redes sociais e as incertezas sobre o futuro intensificam o sofrimento psíquico durante a adolescência, fase crucial de autodescoberta. A falta de espaços seguros para a expressão de sentimentos é outro ponto crítico. Muitas famílias e escolas, focadas em resultados, não oferecem o acolhimento necessário, e a ajuda profissional só costuma ocorrer em situações já graves.

## A Influência da História Familiar e Gatilhos Pessoais

A visão sistêmica aplicada aos transtornos psicológicos, defendida por Adriana Braz de Oliveira, ressalta a importância da história familiar na compreensão da saúde mental. Adolescentes podem crescer em contextos marcados por traumas, conflitos ou segredos não elaborados de gerações anteriores. Essas dinâmicas, mesmo não compreendidas totalmente pelo jovem, podem influenciar sua percepção e enfrentamento das emoções.

A profissional de educação Rafaela Cristina Campos, 32 anos, exemplifica essa conexão. Ela relata que episódios de violência vivenciados na infância atuaram como gatilho para seus transtornos de ansiedade e depressão na vida adulta, demonstrando como experiências passadas podem reverberar e necessitar de tratamento.

## Sinais de Alerta e a Urgência da Escuta

Os sinais de ansiedade em adolescentes nem sempre são óbvios, podendo se manifestar através de mudanças comportamentais. Alterações no sono e apetite, isolamento social, irritabilidade, queda no rendimento escolar, recusa em ir à escola e queixas físicas recorrentes (dores de cabeça, problemas estomacais) são indicadores importantes. Comportamentos mais graves, como automutilação, uso de substâncias ou falas de desesperança, exigem atenção imediata.

A especialista enfatiza a necessidade de mudar a resposta social a esses sinais, passando do "besteira" ou "drama" para um "interesse genuíno pelo que o adolescente está vivendo". Fortalecer vínculos afetivos e criar ambientes de diálogo autêntico são passos fundamentais para oferecer o suporte necessário a essa geração.