90% dos médicos recém-formados se sentem despreparados para dar más notícias

Estudo brasileiro revela que 90% dos médicos recém-formados se sentem despreparados para dar más notícias, apontando falhas no treinamento da graduação.

90% dos médicos recém-formados se sentem despreparados para dar más notícias

Um estudo realizado no Brasil aponta que uma vasta maioria de médicos recém-formados, cerca de 90%, declara não se sentir adequadamente preparada para comunicar más notícias a pacientes e seus familiares. A pesquisa, que envolveu 2.418 profissionais recém-saídos da graduação, indica que o treinamento recebido durante o curso universitário é considerado insuficiente para lidar com situações tão delicadas.

## Despreparo e Falta de Treinamento Formal

Os resultados da pesquisa, publicada na Revista Bioética, revelam que aproximadamente 40% dos médicos nunca receberam qualquer tipo de treinamento formal sobre como comunicar más notícias. Embora 61,2% tenham tido alguma exposição ao tema durante a graduação, a percepção predominante é de que essa formação não foi suficiente para prepará-los para a prática clínica. Daniel Alveno, fisioterapeuta do Hospital São Paulo da Unifesp e autor do estudo, ressalta a importância de uma comunicação eficaz em casos de doenças graves e ameaçadoras à vida. Ele alerta que a ausência de treinamento adequado aumenta significativamente a probabilidade de falhas na comunicação, com potenciais consequências negativas para o paciente e a família.

## Necessidade de Habilidades Humanísticas na Formação Médica

Sandro Schreiber, presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), corrobora os achados, afirmando que a preocupação com a formação humanística dos médicos, incluindo a comunicação de más notícias, é antiga. Ele destaca a necessidade de um investimento contínuo nessa área. A comunicação clara sobre o prognóstico e as opções de tratamento é fundamental para que pacientes e familiares possam tomar decisões informadas e planejar suas vidas, mesmo diante de diagnósticos difíceis. A falta dessa clareza pode, inclusive, comprometer a adesão ao tratamento e a qualidade de vida do paciente.

## Protocolos de Comunicação e o Futuro da Formação

O estudo também investigou o conhecimento dos médicos sobre protocolos estruturados para a comunicação de más notícias. Cerca de 65% dos participantes afirmaram conhecer o protocolo Spikes, um acrônimo amplamente utilizado internacionalmente que guia seis etapas para essa comunicação. No entanto, uma parcela considerável, entre 29% e 35%, desconhecia a existência de tais protocolos. A pesquisa, iniciada em 2016 com médicos aguardando a prova de residência na Unifesp e concluída em 2022, reforça a urgência de integrar de forma mais robusta o treinamento em habilidades de comunicação nas grades curriculares dos cursos de medicina no Brasil, visando um atendimento mais humanizado e eficaz.