Vaticano excomunga grupo ultraconservador por rito litúrgico, não por missa em latim

Vaticano excomunga grupo ultraconservador Fraternidade Sacerdotal São Pio X. A decisão se baseia em desrespeito à autoridade papal e negação do Concílio Vaticano II, e não na celebração de missas em latim.

Vaticano excomunga grupo ultraconservador por rito litúrgico, não por missa em latim

O Vaticano excomungou as lideranças do grupo ultraconservador Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que tem como uma de suas bandeiras a celebração de missas em latim. No entanto, a decisão papal não se deve à predileção pela antiga língua, mas sim ao desrespeito à autoridade do Papa e à negação das decisões do Concílio Vaticano II, ocorrido entre 1962 e 1965.

O Concílio Vaticano II buscou modernizar a Igreja Católica, e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X insiste em celebrar missas seguindo o rito anterior ao concílio, conhecido como rito tridentino. Essa prática, que inclui o padre de costas para a assembleia e a missa em latim, é vista pela Igreja como uma forma de manifestar divergências políticas e ideológicas.

De acordo com o historiador e cientista da religião Víctor Gama, pesquisador na PUC-MG, a questão litúrgica é a divergência mais visível entre o grupo e a Igreja contemporânea. Ele explica que, para os tradicionalistas, a "missa antiga", ou tridentina, é a expressão mais perfeita do culto católico.

Embora o rito tridentino seja tradicionalmente em latim, a Igreja Católica não proíbe o uso do idioma. O latim é a língua oficial do Vaticano e pode ser utilizado em ocasiões solenes. Contudo, o modelo aprovado após o Concílio Vaticano II sugere o uso do idioma vernáculo da comunidade para maior acessibilidade e comunicação, com o padre voltado para os fiéis.

O vaticanista Filipe Domingues e o teólogo Gerson Leite de Moraes reforçam que a discussão central não é a língua, mas o rito. O Concílio Vaticano II não aboliu o latim, mas facilitou o uso das línguas locais para tornar a missa mais inclusiva. O Código de Direito Canônico permite a celebração em latim ou outra língua com textos aprovados, e o próprio concílio determinou a preservação do latim nos ritos latinos, ao mesmo tempo que admitiu um uso mais amplo das línguas vernáculas quando pastoralmente útil.

O padre José Eduardo de Oliveira e Silva esclarece que o problema reside em "inventar uma liturgia particular, fazer da missa um manifesto pessoal ou usar o latim como bandeira de guerra contra a própria Igreja", o que não é permitido. A Fraternidade São Pio, ao desrespeitar a autoridade papal e as decisões conciliares, motivou a excomunhão.