Sportswashing: Como o Esporte "Limpa" Imagens de Regimes e Corporações
Descubra o significado de 'sportswashing', a prática de usar o esporte para melhorar a imagem de regimes e corporações com histórico questionável, e entenda sua relação com a Copa do Mundo.

O termo "sportswashing" tem ganhado destaque, especialmente em discussões sobre grandes eventos esportivos como a Copa do Mundo. Essa prática consiste em utilizar o esporte como ferramenta para refinar a imagem pública de entidades que enfrentam acusações de violações éticas, políticas ou de direitos humanos. Ao associar-se aos valores positivos intrinsecamente ligados ao esporte, como fair play, superação e união, o ator em questão busca desviar a atenção de suas falhas e moldar uma percepção externa mais favorável.
Embora o sportswashing seja frequentemente associado a regimes autoritários, seu alcance é mais amplo. Grandes corporações também podem empregar essa estratégia, por exemplo, através da aquisição de direitos de nome para estádios, equipes e competições. A prática, vista como uma tática de relações públicas, visa capitalizar a popularidade e o alcance global do esporte.
## Origens e Exemplos Históricos
Especialistas apontam o início do século XX como o período em que o esporte começou a ser instrumentalizado dessa forma. Dois exemplos marcantes são a vitória da Itália na Copa do Mundo de 1934, utilizada pelo ditador fascista Benito Mussolini, e a realização dos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, sob o regime nazista de Adolf Hitler.
A expressão "sportswashing", contudo, emergiu mais claramente no final dos anos 2000, com a compra do clube de futebol Manchester City pelo Abu Dhabi United Group em 2008. Ganhou força em 2010, quando o Catar foi escolhido como sede da Copa do Mundo de 2022. A popularização do termo também é atribuída ao movimento "Sport for Rights", que criticava o governo do Azerbaijão e se opunha à realização dos Jogos Europeus de 2015 no país.
O conceito deriva de "whitewashing", que descreve a tentativa de encobrir ou amenizar práticas condenáveis para limpar a imagem pública. "Sportswashing" dialoga com outros termos como "pinkwashing" (uso de causas LGBTQIA+ para melhorar a imagem) e "greenwashing" (aparentar preocupação ambiental sem ações concretas).
## Casos Recentes e Críticas
Na década de 2010, o sportswashing tornou-se proeminente com a compra e o patrocínio de clubes de futebol por fundos de investimento de países do Oriente Médio. Casos como a aquisição do Newcastle United pela Arábia Saudita e do PSG pelo Catar são frequentemente citados. Patrocínios de empresas estatais, como a Turkish Airlines, em clubes europeus, e a estampa "Visit Rwanda" em camisas de times como Arsenal e PSG, também ilustram essa estratégia.
Grandes eventos como Olimpíadas e Copas do Mundo também têm sido alvos de críticas. A realização da Copa de 2018 na Rússia, país sob escrutínio internacional por questões políticas e de direitos humanos, e a escolha do Catar em 2022, com acusações de violações de direitos e restrições de liberdades, exemplificam essa tendência.
## Um Conceito Eurocêntrico?
Emanuel Leite Júnior, doutor em Políticas Públicas, alerta para um possível viés eurocêntrico no uso do termo "sportswashing". Segundo ele, o conceito é frequentemente aplicado de forma seletiva a países não ocidentais ou que desafiam a ordem internacional, enquanto estratégias semelhantes de potências ocidentais são naturalizadas. Ele argumenta que o termo deveria ser aplicado indistintamente a qualquer Estado que utilize megaeventos esportivos com esse propósito, citando a própria Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, como um exemplo onde a crítica se concentra em figuras políticas específicas, e não no país como um todo.
A discussão sobre sportswashing levanta questões importantes sobre a influência do esporte na política internacional e a responsabilidade de governos e corporações em seus impactos sociais e éticos.