Produtora de filme sobre Bolsonaro operava de casa nos EUA
Produtora de filme sobre Jair Bolsonaro operava de uma casa em subúrbio dos EUA. PF investiga repasses milionários e possível ligação com financiamento de Eduardo Bolsonaro.

A produtora Go Up Entertainment LLC, responsável pela cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro intitulada "Dark Horse", operava a partir de uma residência suburbana em Raleigh, na Carolina do Norte, Estados Unidos. Até o início de junho, o endereço registrado para a empresa era a casa de um de seus sócios, o produtor Michael Brian Davis, em um imóvel de dois andares.
Produtores de cinema consultados de forma reservada indicam que não é habitual que produtoras envolvidas em projetos de alto orçamento, como é o caso de "Dark Horse", funcionem em locais residenciais. O filme já consumiu cerca de US$ 13,3 milhões (aproximadamente R$ 75 milhões), segundo seus próprios realizadores.
O financiamento da produção se tornou alvo de investigação pela Polícia Federal após reportagens revelarem que o banqueiro Daniel Vorcaro, detido por suspeitas de crimes financeiros, teria repassado ao menos US$ 12 milhões para o projeto. Há também indícios de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria solicitado US$ 24 milhões a Vorcaro, o que o parlamentar nega, afirmando que sua atuação se limitou a cobrar parcelas de um pagamento prometido ao filme.
O caso ganhou contornos mais complexos com a revelação de que o dinheiro passou por empresas e fundos de investimento sediados nos EUA, um deles ligado a um advogado que atua para o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Eduardo assinou um contrato como produtor do filme, com responsabilidades sobre a gestão financeira, o que levanta suspeitas de que os repasses de Vorcaro pudessem ter como objetivo financiar a permanência de Eduardo nos EUA. Ele admitiu ter investido R$ 350 mil no filme, mas negou ter recebido dinheiro de Vorcaro.
Em sua defesa, a produtora Go Up Entertainment LLC, através de seu sócio Michael Brian Davis, afirmou que é comum nos EUA "empresas produtoras, holdings criativas, desenvolvedoras de projetos e produtoras independentes terem estruturas administrativas enxutas", e que o tamanho físico de uma sede não reflete a dimensão da produção. Davis declarou que a empresa administrou o orçamento "integralmente", mas que não teve contato com Vorcaro ou empresas ligadas a ele, desconhecendo a origem dos recursos.
A defesa de Flávio Bolsonaro reiterou que o patrocínio ao filme ocorreu em uma relação privada, sem uso de recursos públicos, e que a participação do senador se restringiu à captação de recursos.
Após as reportagens e a visita da BBC News Brasil, o endereço da produtora foi alterado para um prédio comercial na mesma cidade. Na residência que servia de sede, foram encontradas estações de edição de vídeo em meio a objetos pessoais, indicando um ambiente de trabalho improvisado.