Partidos perdem interesse na Presidência e focam no Congresso
Pesquisadora aponta que partidos brasileiros perderam o interesse estratégico pela disputa presidencial, focando suas energias e recursos nas eleições para o Congresso Nacional.

## Mudança de Foco Partidário
A dinâmica política brasileira parece ter sofrido uma alteração significativa, com os partidos demonstrando um interesse decrescente na disputa pela Presidência da República. Segundo Cila Schulman, CEO do Instituto Ideia, essa desmobilização não se deve apenas à dificuldade de novos nomes em conquistar o eleitorado, mas a uma decisão estratégica das próprias legendas em concentrar seus esforços e recursos nas eleições para a Câmara dos Deputados e o Senado.
Essa mudança de prioridade estaria diretamente ligada ao fortalecimento do Poder Legislativo, que tem ampliado seu controle sobre o Orçamento e o modelo de distribuição de fundos partidário e eleitoral. Schulman observa que, enquanto o eleitorado busca alternativas aos nomes polarizados, a oferta de candidatos presidenciais competitivos tem sido escassa, muitas vezes sem o apoio sequer de seus próprios partidos. "Os partidos perderam interesse pela campanha presidencial. Esse é o fato, e é isso que a gente está vendo com relação à falta de oferta de candidatos", explicou.
## Poder e Recursos no Legislativo
A pesquisadora destaca que a lógica partidária se transformou à medida que o Congresso ganhou mais proeminência na execução de políticas públicas e na alocação de verbas. O poder financeiro e decisório concentrou-se no Legislativo, especialmente através das emendas parlamentares e da base de cálculo para os fundos partidário e eleitoral, que dependem do tamanho da bancada de deputados federais. "É nisso que os partidos investem neste momento", afirmou Schulman.
Essa conjuntura explica a dificuldade de candidatos que se posicionam como alternativas a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em consolidar apoio nacional e construir alianças, mesmo com eleitores insatisfeitos com os dois polos. Governadores e outras figuras políticas mantêm maior presença em seus estados ou focam em redes sociais, sem alcançar dois dígitos em pesquisas. A falta de um projeto claro e a ausência de engajamento partidário na disputa presidencial contribuem para que a campanha se restrinja à rejeição mútua, afastando o eleitor.
## Desafios na Formação de Chapa Presidencial
O desinteresse partidário também se reflete nas negociações para a formação de chapas presidenciais, como no caso de Flávio Bolsonaro. A pouca disposição para compor a chapa majoritária, mesmo às vésperas da campanha oficial, e as dificuldades em atrair partidos do Centrão evidenciam essa tendência. A busca por um vice, por exemplo, enfrenta resistências e negociações complexas com legendas como o Republicanos.
Schulman lamenta a ausência de projetos e planos de país discutidos durante o período eleitoral. A campanha, segundo ela, tem se baseado mais na negação do adversário do que na apresentação de propostas concretas para o futuro, o que dificulta o engajamento do eleitorado. "Você não tem projeto de nenhum lado, não tem ninguém discutindo um plano de Brasil. O eleitor vota em uma utopia desejável, ele quer ver alguma coisa para frente, quer ver um sonho", concluiu.