Michelle Bolsonaro: Briga familiar afeta voto feminino no PL
Disputas internas e falas polêmicas de aliados de Flávio Bolsonaro minam a estratégia do PL de atrair o voto feminino, segmento crucial para o sucesso eleitoral.

A ascensão de Michelle Bolsonaro no cenário político e sua posterior saída conturbada do comando do PL Mulher expuseram fissuras internas que podem ter impacto direto na busca do partido por votos femininos. O episódio em que Michelle se sentiu "maltratada", "desrespeitada" e "humilhada" pelo enteado, Flávio Bolsonaro, e posterior exposição da desavença familiar, a colocou na mira de ataques de figuras influentes na extrema-direita, que a rotularam como "traidora" e "feminista".
O palco para a tensão foi o evento de posse de Michelle na presidência do PL Mulher, em março de 2023. No entanto, o evento foi marcado pela predominância masculina nas falas. Jair Bolsonaro, Valdemar Costa Neto, Altineu Côrtes, Jorginho Mello e Magno Malta dominaram os microfones. Enquanto o ex-presidente enalteceu o crescimento do partido, temas femininos foram ignorados. Côrtes protagonizou uma gafe ao confundir a esposa de um deputado com sua filha. Jorginho Mello lamentou a dificuldade em preencher a cota de candidaturas femininas, e Magno Malta fez declarações consideradas transfóbicas, exaltando "o útero" como definidor de mulher.
Michelle, ao assumir o cargo, mencionou a resistência de muitas mulheres em ingressar "no ambiente hostil da política", antecipando os próprios conflitos que enfrentaria. Com um orçamento considerável para eventos, propaganda e viagens, ela filiou mais de 70 mil mulheres ao PL e nutria planos de se tornar senadora, além de eleger candidatas evangélicas. Essa projeção teria gerado ciúmes e suspeitas entre os filhos de Bolsonaro, que a viam como uma potencial líder de uma bancada própria no Congresso.
A estratégia de Flávio Bolsonaro de se desvincular da imagem conservadora e misógina do pai, inclusive vestindo uma camiseta "pai de menina", já vinha sendo prejudicada pela briga familiar. A declaração do blogueiro Paulo Figueiredo, aliado de Flávio e seu porta-voz nos EUA, de que "mulher vota mal pra c...", escancarou, segundo a reportagem, o pensamento de parte da ideologia do clã. A demora de Flávio em se distanciar publicamente do aliado reforçou a percepção de alinhamento com essa visão.
Historicamente, o voto feminino foi crucial na derrota de Bolsonaro em 2018, impulsionado por pautas como o culto às armas, a gestão da pandemia e declarações misóginas. A vantagem de 15 pontos que Lula detém sobre o segmento, segundo o Datafolha, indica que o PL enfrenta um desafio significativo para reverter essa tendência, agravado pelas recentes polêmicas internas e declarações de seus porta-vozes.