Lula busca voto de entregadores, mas remuneração trava apoio

Governo Lula busca apoio de trabalhadores de aplicativos com novas medidas, mas a categoria critica falta de avanço na remuneração e cobra tarifa mínima.

Lula busca voto de entregadores, mas remuneração trava apoio

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem intensificado esforços para se aproximar dos trabalhadores de aplicativos, grupo que, segundo pesquisas, tende a ter inclinações políticas conservadoras. No entanto, a iniciativa pode não se traduzir em apoio eleitoral, uma vez que a categoria aponta a falta de avanço em um ponto fundamental: a remuneração. Muitos trabalhadores ouvidos pela reportagem expressam desconhecimento sobre as ações recentes do governo ou demonstram insatisfação, convergindo na demanda por uma tarifa mínima para os serviços prestados.

Desde a entrada de Guilherme Boulos (PSOL) na Secretaria-Geral da Presidência, a agenda governamental voltada para essa parcela da população foi ampliada. As ações, contudo, são vistas por muitos como paliativas, especialmente diante da paralisação de um projeto de lei de regulamentação na Câmara dos Deputados, que enfrenta divergências e descontentamento entre os próprios trabalhadores.

Dados do IBGE de 2024 indicam que os trabalhadores de aplicativo no Brasil somam cerca de 1,7 milhão de pessoas, majoritariamente homens (84%) e pretos ou pardos (54%). A faixa etária predominante é de 25 a 39 anos, com rendimento médio mensal de R$ 2.996. A maioria possui ensino médio completo ou superior incompleto.

Entre as iniciativas do governo está a exigência para que as plataformas discriminem os valores repassados aos trabalhadores, medida que, embora estabelecida em março, tem sido descumprida por algumas empresas. Outras ações incluem linhas de crédito para aquisição de veículos com juros reduzidos, como R$ 30 bilhões para motoristas e taxistas e cerca de R$ 4 bilhões para motos. O BNDES também anunciou o financiamento de R$ 340 milhões para a Tembici, visando baratear o aluguel de bicicletas elétricas para entregadores.

Além disso, o governo planeja a criação de cem pontos de descanso e suporte em todo o país até o final do ano. O primeiro desses espaços, equipado com diversas comodidades, foi inaugurado em Mauá (Grande SP) no final de junho. O custo total do projeto não foi divulgado, mas o investimento social é atribuído à Fundação Banco do Brasil.

Essas medidas ocorrem em um contexto de diálogo com a categoria e da promessa de um comitê interministerial para monitorar as políticas públicas. Contudo, muitos trabalhadores, especialmente os não sindicalizados, que formam a maioria, relatam desconhecer essas iniciativas. Edgard Villanova, 39 anos, entregador em Mauá, elogiou o ponto de apoio local, mas desconhece outras ações governamentais. Ele se posiciona contra a regulamentação, por temer o aumento de impostos, e defende uma tarifa mínima por corrida.

Vittor Hugo Teixeira, 25 anos, outro entregador da região, considera o ponto de apoio escolhido pelo governo pouco estratégico, preferindo locais com maior demanda de pedidos. Ele tem conhecimento da linha de crédito para financiamento de veículos. Segundo pesquisa Datafolha de 2023, encomendada por Uber e iFood, 40% dos motoristas e entregadores se declaram de centro, 40% de direita (incluindo 30% de extrema-direita) e 20% de esquerda.