Lula: aprovação presidencial mais sensível à economia em 30 anos

Estudo revela que aprovação de Lula é a mais sensível à inflação e desemprego em 30 anos. Bolsonaro é o menos afetado. Fatores econômicos ganham peso nas eleições.

Lula: aprovação presidencial mais sensível à economia em 30 anos

A aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu terceiro mandato apresenta uma sensibilidade sem precedentes à inflação e ao desemprego, quando comparada aos presidentes dos últimos 30 anos. Um estudo da MB Associados, conduzido pelo economista Sergio Vale, aponta que o bem-estar econômico tornou-se um fator ainda mais crucial para a avaliação do eleitorado brasileiro.

O levantamento cruzou o "índice da miséria" — a soma da taxa de desemprego com o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) — com os índices de aprovação presidencial desde 1996. A análise abrangeu cinco presidentes e nove mandatos ao longo de três décadas.

## Lula e o Índice da Miséria

Apesar de o índice da miséria estar em seu menor patamar em 30 anos, um fato positivo para o governo, a perspectiva de alta da inflação nos próximos meses representa um desafio. A pesquisa indica que, a cada ponto percentual de variação no índice da miséria, a aprovação de Lula sofre oscilações de 5,8 pontos percentuais no acumulado de 12 meses. Este índice é aproximadamente quatro vezes superior ao de 1,4 ponto registrado para Jair Bolsonaro.

Especialistas atribuem essa diferença às expectativas dos eleitores. "Lula é avaliado a partir de uma expectativa mais concreta: melhorar a vida material, garantir comida na mesa, salário com poder de compra, emprego e proteção social. Esse é o contrato simbólico dele com parte importante do eleitorado", explica o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisa e Consultoria.

## Bolsonaro e a Base Ideológica

Em contrapartida, Jair Bolsonaro se mostra o mandatário menos afetado pelas flutuações econômicas. Segundo o estudo, isso se deve à sua base eleitoral majoritariamente ideológica e antipetista, para a qual questões materiais como emprego e inflação têm menor peso comparativo.

## Comparativo com Outros Mandatos

O estudo da MB Associados também comparou a sensibilidade de outros presidentes. Fernando Henrique Cardoso registrou uma variação de 2,2 pontos percentuais em sua aprovação ligada à inflação e desemprego. Michel Temer teve uma oscilação de 3,7 pontos, enquanto Dilma Rousseff, também associada ao bem-estar econômico, apresentou 4,3 pontos.

Os dois primeiros mandatos de Lula (2003-2010) apresentaram uma suscetibilidade menor, com oscilações de 3,7 pontos. Especialistas apontam que o desgaste do eleitor com a inflação crescente nos últimos anos e a quase duas décadas de governos do PT podem explicar essa mudança.

## Contexto Inflacionário Global

Cientistas políticos como Leonardo Meira Reis, analista da Eurasia Group, ressaltam que o mundo tem enfrentado choques inflacionários desde a pandemia de Covid-19, agravados por eventos como a Guerra na Ucrânia e conflitos no Oriente Médio. Embora os preços estejam aumentando mais lentamente, eles permanecem em um patamar elevado.

André Braz, coordenador de índices de preços da FGV, destaca que a inflação acumulada em 12 meses atingiu 4,8% na primeira metade de junho, mesmo com uma leve queda no IPCA-15. A taxa de desemprego, por sua vez, estava em 5,6% no trimestre encerrado em maio, o menor índice histórico.