Fazendeiros colombianos voltam à coca por falta de apoio oficial
Agricultores colombianos desistem de programas de substituição de cultivos de coca devido à falta de apoio financeiro e técnico, retornando à produção ilegal da matéria-prima da cocaína.

Milhares de agricultores na Colômbia, após tentarem abandonar o cultivo de coca – matéria-prima da cocaína – em troca de programas governamentais de substituição por culturas legais, estão retornando à produção ilícita. A principal razão apontada é a falha na entrega da assistência financeira e técnica prometida pelos programas, deixando os produtores sem alternativas viáveis de subsistência.
## Desilusão com Programas de Substituição
O fazendeiro Perea, da província de Meta, exemplifica essa situação. Após arrancar seus arbustos de coca e substituí-los por mandioca e banana, ele não recebeu o apoio financeiro prometido. A falta de infraestrutura, como estradas precárias, e as inundações recorrentes dificultavam a venda de sua produção legal. Em 2024, Perea relatou ter voltado a cultivar coca, justificando que "quando você tem filhos e não tem trabalho, que escolha lhe resta?". Ele é um entre milhares que aderiram a iniciativas como o Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos Ilícitos (PNIS), lançado após o acordo de paz de 2016. A promessa era de 36 milhões de pesos colombianos (aproximadamente R$ 57 mil) ao longo de dois anos, além de apoio técnico.
## Desafios Históricos e Falta de Continuidade
Elena Hernández, que se mudou para a região de cultivo de coca na década de 1990 em busca de melhores rendimentos, também aderiu ao PNIS em 2017. Apesar de inicialmente ter visto a iniciativa como promissora, ela relata "atrasos nos pagamentos" e a "falta de comprometimento do governo". A precária presença estatal nas zonas rurais e a falta de coordenação entre órgãos governamentais foram barreiras significativas para que o apoio chegasse às comunidades. O ímpeto do programa diminuiu com mudanças nas prioridades políticas, e a abordagem governamental oscilou entre programas de substituição e estratégias de erradicação e segurança, dependendo da administração presidencial.
## Coca: Uma Cultura Lucrativa, Apesar dos Riscos
A cultura da coca, embora ancestralmente usada por comunidades indígenas para fins medicinais e rituais, hoje é a principal fonte de cocaína. Estima-se que 70% da oferta global dessa droga ilegal se origine na Colômbia. Pesquisadores apontam que a coca oferece vantagens como colheitas rápidas (três a quatro por ano) e facilidade de transporte e comercialização, além de impulsionar economias locais, elevando o PIB municipal em até 10% em algumas áreas. Apesar dos esforços de erradicação e controle, o plantio de coca atinge níveis recordes, ultrapassando 250 mil hectares, e muitos agricultores, desiludidos com a ineficácia dos programas de apoio, sentem-se sem outra opção a não ser retornar à produção ilícita.