EUA: Vitórias de direita na América Latina podem ter impulsionado Trump contra Brasil

Especialistas apontam que vitórias de direita na América Latina podem ter incentivado Trump a antagonizar o Brasil, com novas tarifas e declarações políticas.

EUA: Vitórias de direita na América Latina podem ter impulsionado Trump contra Brasil

Especialistas em relações internacionais avaliam que o governo de Donald Trump intensificou sua postura antagonista em relação ao Brasil em resposta a uma onda de vitórias eleitorais de aliados de direita em países da América Latina. Essa percepção sugere que os resultados no Chile, Colômbia e Peru teriam convencido Washington de que a interferência política na região pode ser eficaz.

A relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos, que parecia ter se estabilizado após uma visita do presidente Lula a Washington no início do ano, entrou em declínio acentuado. Em uma sequência de ações, o governo Trump recebeu o senador Flávio Bolsonaro no Salão Oval, designou facções brasileiras como terroristas e impôs novas tarifas sobre produtos brasileiros. O secretário de Estado, Marco Rubio, chegou a afirmar explicitamente que as negociações falharam devido à postura do presidente Lula.

## Influência regional na política externa

O professor Felipe Loureiro, do Instituto de Relações Internacionais da USP, observa que essa escalada de tensões coincide com um fortalecimento da extrema direita na América Latina. Ele cita as vitórias de José Antonio Kast no Chile, Javier Milei na Argentina e Keiko Fujimori no Peru, além de Abelardo de la Espriella na Colômbia, como exemplos dessa guinada regional. Segundo Loureiro, esses eventos podem ter levado o governo americano a acreditar que qualquer medida para dificultar a gestão de Lula seria oportuna, especialmente em um contexto eleitoral brasileiro.

O diplomata Rubens Ricupero corrobora essa visão, destacando que, embora Trump já tenha adotado medidas tarifárias contra outros países, a motivação contra o Brasil parece ser explicitamente política. Ele refuta a alegação de que as tarifas foram resultado de um "ego" de Lula, argumentando que a administração Trump tem dificuldade em aceitar um governo com orientação política distinta na América Latina, região onde historicamente busca alinhamento.

## Estratégias e expectativas futuras

Amâncio Jorge de Oliveira, professor titular de Relações Internacionais da USP, acrescenta que o desejo de Trump de formar uma "aliança conservadora" nas Américas contribui para o distanciamento entre os países. Oliveira também levanta a hipótese de que o tarifaço possa ter sido uma resposta à falta de concessões esperadas por parte do Brasil após a suspensão de sanções contra o Supremo Tribunal Federal, como o acesso a mercados de terras raras.

A diplomacia baseada em posturas unilaterais é apontada como um método característico do governo americano atual, embora possa haver uma desconexão entre os efeitos políticos desejados e as medidas empregadas. O cenário sugere que, apesar de Trump ser visto como um "veneno com data de validade" por alguns analistas, suas ações continuam a gerar instabilidade nas relações diplomáticas da região.