EUA e China: A Nova Ordem Global em Disputa

Historiador Niall Ferguson analisa a disputa entre EUA e China, destacando IA e soberania digital como focos da nova ordem global. Taiwan é apontado como ponto de maior risco geopolítico.

EUA e China: A Nova Ordem Global em Disputa

A crescente rivalidade entre Estados Unidos e China não se limita mais a esferas econômicas e comerciais, mas se estende a campos cruciais como inteligência artificial (IA), soberania digital e segurança nacional. Segundo o renomado historiador Niall Ferguson, esses elementos serão os determinantes da nova ordem global nas próximas décadas. A análise foi apresentada durante um painel na Expert XP 2026, em São Paulo.

## A Nova Guerra Fria e a IA como Ativo Estratégico

Ferguson alertou para o cenário de uma “segunda Guerra Fria” entre as duas superpotências, uma dinâmica geopolítica que, em sua visão, moldará as relações internacionais pelos próximos 50 anos. Contrariando a ideia de ciclos históricos previsíveis, o historiador descreve a história como um sistema complexo, suscetível a choques inesperados que podem alterar seu curso.

A inteligência artificial, antes vista meramente como um avanço tecnológico, agora é considerada um ativo estratégico para a segurança nacional. Ferguson destacou que os EUA abandonaram a abordagem de regulação mínima para o setor, reconhecendo seu potencial estratégico. Simultaneamente, a competição com a China se intensifica, especialmente com o avanço de modelos de código aberto chineses. A era da “regulação zero” para a IA chegou ao fim, forçando empresas e governos a definirem suas estratégias de incorporação da tecnologia e a escolha de ecossistemas.

## Soberania Digital e o Risco em Taiwan

O conceito de soberania digital, segundo o historiador, está intrinsecamente ligado à capacidade de desenvolver infraestrutura própria. A posse de provedores de nuvem, fabricantes de semicondutores e modelos de linguagem autônomos é vista como essencial para a autonomia digital. Ferguson prevê um futuro onde o domínio da inteligência artificial será disputado por essas duas superpotências globais.

O ponto de maior tensão geopolítica, na avaliação de Ferguson, não reside na guerra da Ucrânia, mas sim no Estreito de Taiwan. A ilha é responsável pela produção da vasta maioria dos semicondutores mais avançados do mundo, e qualquer interrupção nesse fornecimento teria repercussões econômicas globais imediatas. O historiador aponta que o maior risco não é necessariamente uma invasão militar em larga escala, mas sim uma pressão gradual de Pequim para controlar o comércio e as exportações taiwanesas, configurando o que ele chama de “o momento mais perigoso da Segunda Guerra Fria”.

## Fragilidades Estruturais da China e Rússia

Ferguson também ponderou que a força percebida da China pode ser superestimada. O país enfrenta desafios estruturais, como o declínio demográfico e a concentração de poder político, semelhantes aos de regimes autoritários do passado, o que, segundo ele, os torna “bastante frágeis”. Quanto à Rússia, a guerra na Ucrânia é vista como um sintoma de enfraquecimento, evidenciando as dificuldades militares e econômicas do país, e não um renascimento de seu poder, como imaginado por Vladimir Putin.