Crise na Colômbia: Petro repete táticas de Bolsonaro

Crise política na Colômbia espelha táticas de Bolsonaro. Presidente Petro é acusado de deslegitimar eleições e tentar golpe, gerando temores de instabilidade democrática.

Crise na Colômbia: Petro repete táticas de Bolsonaro

A Colômbia atravessa uma grave crise política que apresenta notáveis paralelos com a turbulência vivida pelo Brasil em 2022, embora com polos ideológicos invertidos. A desconfiança populista, característica marcante em ambos os cenários, fragiliza a democracia na região.

## Suspensão da Transição e Acusações de Golpe

A tensão na Colômbia atingiu um novo patamar na última terça-feira, quando o presidente eleito Abelardo de la Espriella suspendeu o processo de transição. Ele acusou o presidente em exercício, Gustavo Petro, de deslegitimar o resultado eleitoral e de tentar um golpe de Estado. A crise eclodiu após Espriella derrotar o candidato de esquerda Iván Cepeda por uma margem mínima, menos de 1% dos votos, com Cepeda sendo apoiado pelo atual presidente Petro.

## Desconfiança no Sistema Eleitoral

Os paralelos com o Brasil são evidentes na forma como Petro, assim como Bolsonaro, começou a desacreditar o sistema eleitoral bem antes do pleito. Ao longo de 2025, Petro atacou a empresa Thomas Greg & Sons, responsável pela logística eleitoral, alegando, sem apresentar provas, que ela preparava uma "fraude monumental". Posteriormente, levantou a suspeita de que formulários de atas de apuração em branco poderiam levar à fraude eleitoral. Em ambos os casos, a estratégia foi a mesma: sem apontar um problema específico, disseminou-se uma desconfiança difusa que mudava de alvo conforme as denúncias se mostravam frágeis e eram desmentidas. As suspeitas recaíram sobre empresas, formulários, código-fonte, censo eleitoral e mesas com votos "atípicos", replicando as críticas de Bolsonaro sobre a integridade do código-fonte, a "sala secreta" do TSE, urnas "viciadas" e saltos de votos.

## Reconhecimento Tardio e Não Passagem da Faixa

Assim como Bolsonaro, que demorou dois dias para reconhecer o resultado eleitoral de forma indireta, permitindo a transição, Cepeda também atrasou seu reconhecimento em três dias, alegando interferência estrangeira, compra de votos e manipulação por inteligência artificial. Além disso, Petro sinalizou que não passará a faixa presidencial a Espriella. Seu discurso de despedida, inicialmente previsto para a posse em agosto, foi antecipado para uma manifestação de rua em 20 de julho. A imprensa colombiana especula que a entrega da faixa poderá ser feita pelo vice-presidente. Em 2022, Bolsonaro viajou para os Estados Unidos, evitando assim passar a faixa a Lula.

## Manifestações e Temor de Instabilidade

Após a derrota de seu candidato, Petro convocou manifestações populares massivas, interpretadas pela oposição como uma tentativa de golpe, remetendo aos eventos de 6 de janeiro de 2021 nos EUA e 8 de janeiro de 2023 no Brasil. Petro declarou que "Abelardo não venceu as eleições" e que "o presidente eleito é o filósofo Iván Cepeda", afirmando que "o processo de transferência de poder continua perante o povo". Há um temor generalizado de que apoiadores de Petro possam usar a manifestação de 20 de julho para desafiar as instituições. Espriella apelou às Forças Armadas para "cumprir seu juramento, proteger a Constituição e a democracia" e "não obedecer a nenhuma ordem de Petro em contrário", pedindo "resistência" ao povo colombiano.

A questão central que emerge desses eventos, tanto na Colômbia quanto no Brasil, não é determinar quem é o "maior vilão", mas sim compreender as razões profundas que levam cidadãos a perderem a confiança nas instituições que deveriam representá-los. Sem responder a essa pergunta, o combate se limita a sintomas, enquanto a defesa da democracia fica comprometida.