Crime Organizado Ganha Força na Política do Rio de Janeiro

Crime organizado ganha força na política do Rio de Janeiro com territorialização de votos e ascensão de políticos com vínculos ilícitos, alertam especialistas.

Crime Organizado Ganha Força na Política do Rio de Janeiro

A política do Rio de Janeiro tem sido marcada pela crescente influência do crime organizado, com especialistas alertando para uma 'colonização do Estado' por grupos ilícitos. A territorialização de votos, exemplificada pelo caso de Belford Roxo em 2022, onde a deputada federal Daniela Carneiro (Republicanos) e o ex-deputado estadual Márcio Canella (União) obtiveram expressivos percentuais de votos válidos, demonstra como lideranças locais com vínculos criminosos podem ascender a patamares nacionais.

## Ascensão e Influência

Daniela Carneiro chegou a ocupar o cargo de ministra do Turismo no governo federal, enquanto Márcio Canella almeja uma vaga no Senado. Apesar de atualmente estarem rompidos, a trajetória da dupla evidencia a expansão do poder de agentes com ligações com grupos criminosos nas estruturas de poder. Cientistas políticos apontam que, embora as ambições nacionais de figuras como Canella e Daniela possam ser limitadas, elas servem para ampliar seu poder e influência em seus territórios de origem.

A dinâmica política local no Rio de Janeiro, segundo a cientista política Mayra Goulart, da UFRJ e UFRRJ, tem pouca relação com o cenário nacional, sendo mais direcionada a relações com lideranças territoriais, tanto lícitas quanto ilícitas. Essa característica favorece a consolidação de grupos com atuação à margem da lei.

## Relação Histórica entre Crime e Política

A relação entre crime e política no Rio de Janeiro não é um fenômeno recente, mas tem se tornado mais explícita. Especialistas apontam que a atuação paralela de policiais em grupos de extermínio ou com orientação letal, que historicamente detêm o monopólio do uso da força, ampliou o poder de agentes que agem fora da legalidade. O cientista político João Trajano Sento-Sé, da Uerj, descreve como esses grupos se expandiram, passando a conviver socialmente e a normalizar sua atuação política, oferecendo uma espécie de segurança informal financiada por comerciantes e o baixo empresariado local, e recrutando até mesmo agentes do Estado.

O ministro Gilmar Mendes, do STF, já manifestou preocupação com a influência do crime no Legislativo fluminense, e o presidente Lula comentou sobre o risco de a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) indicar um 'miliciano' para o cargo de governador, evidenciando a gravidade da situação. A operação da Polícia Federal que teve Canella como alvo reforça o alerta sobre a infiltração do crime organizado nas esferas de poder.