Bolsonaro: De Crítico da Influência EUA a Alinhado em 30 Anos
Família Bolsonaro alterou discurso sobre EUA em 30 anos: de críticos nacionalistas a defensores de proximidade e alinhamento ideológico.

A trajetória política da família Bolsonaro revela uma notável inversão de discurso em relação aos Estados Unidos ao longo das últimas três décadas. Enquanto nos anos 1990 e 2000 os discursos eram marcados pela desconfiança e acusações de que os americanos visavam explorar a Amazônia, a gestão de Jair Bolsonaro e a postura de seus filhos indicam um claro alinhamento com a potência norte-americana. Essa mudança de perspectiva é frequentemente associada à percepção de que a cultura ocidental cristã, liderada pelos EUA, estaria sob ameaça da esquerda.
## Virada Ideológica e Proximidade com os EUA
Em janeiro de 2019, o então presidente Jair Bolsonaro teve um diálogo com Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA e conhecido ativista ambiental, no Fórum Econômico Mundial. Na ocasião, Bolsonaro expressou o desejo de "explorar junto com os EUA" as riquezas da Amazônia, um convite que gerou surpresa e foi interpretado como um sinal de aproximação. Essa postura se estendeu aos filhos do ex-presidente. Eduardo Bolsonaro escolheu os Estados Unidos para o que foi chamado de "autoexílio", enquanto o senador Flávio Bolsonaro realizou diversas viagens ao país, incluindo um encontro com o então presidente Donald Trump.
## Nacionalismo e Críticas aos EUA nos Anos 90 e 2000
Contudo, o cenário era drasticamente diferente no passado. Nos anos 1990 e 2000, a família Bolsonaro, imbuída de um forte nacionalismo de origem militar, dirigia críticas públicas aos Estados Unidos. Em 1995, Jair Bolsonaro, então deputado federal, alertou sobre a "cobiça internacional" pela Amazônia, especialmente após a demarcação da terra indígena Yanomami, afirmando que "soberania não se negocia". Três anos depois, ele reiterou a preocupação com o "grande interesse norte-americano pela nossa Amazônia", citando as reservas minerais.
Flávio Bolsonaro, seguindo os passos do pai, também expressou desconfiança em relação aos EUA no início de sua carreira política. Em 2003, como deputado estadual, associou o interesse americano por povos indígenas às riquezas das áreas demarcadas, alertando para uma possível "dependência total" do Brasil caso o país não reagisse. Carlos Bolsonaro, na época vereador, criticou duramente a subserviência do Brasil aos EUA, usando a aprovação do FMI como exemplo e defendendo uma "postura extremamente enérgica de patriotismo".
## Contexto e Motivações da Mudança
Especialistas apontam que a desconfiança em relação aos EUA nos anos 1990 era uma tática para unir setores militares em torno da defesa da Amazônia, especialmente após o fim da Guerra Fria e a ascensão americana como potência global. Para João Roberto Martins Filho, professor da Ufscar, essa retórica servia para angariar apoio da base eleitoral militar. Jorge Chaloub, cientista político da UFRJ, complementa que Bolsonaro representava um "sindicalista do baixo oficialato" e que a década de 1990 foi marcada pela sensação de abandono do Exército e entrega do país a interesses estrangeiros. A transição para uma política de aproximação com os EUA, segundo analistas, reflete uma mudança estratégica, possivelmente motivada pela percepção de ameaças comuns e pela busca de alinhamento ideológico com o Ocidente.