Terremotos na Venezuela: Crise vira palco de disputa política
Terremotos na Venezuela geram disputa política entre Delcy Rodríguez e María Corina Machado. Oposição critica resposta do governo e busca acelerar transição democrática.

As consequências dos violentos terremotos que abalaram a Venezuela se transformaram em um complexo teste político para Delcy Rodríguez. Com seu mandato interino chegando ao fim, a governante busca evitar que a crise humanitária desencadeada pelo desastre se agrave e se converta em uma crise política ainda maior. A situação ganhou contornos de disputa acirrada após a exilada e laureada com o Nobel da Paz, María Corina Machado, apelar por seu retorno ao país.
Machado, que se manifestou do Panamá, argumentou que a resposta governamental aos tremores expôs as fragilidades da administração atual. Segundo ela, seu retorno à Venezuela seria um fator de estabilização e contribuiria para o avanço do processo de transição, especialmente após a tragédia. "Minha presença ajuda a estabilizar a situação; faz parte das forças de organização de que o país precisa em um momento em que ficou evidente a ausência quase total do Estado", declarou Machado, criticando o que percebe como uma resposta oficial lenta e desorganizada ao desastre.
## Números e Desconfiança
As autoridades venezuelanas registraram oficialmente mais de 2.295 mortos e 11 mil feridos em decorrência dos terremotos, com magnitudes de 7,2 e 7,5, que devastaram principalmente o Estado de La Guaira. No entanto, esses números não são atualizados desde quarta-feira, gerando desconfiança. Em contrapartida, a oposição desenvolveu um banco de dados digital para localizar desaparecidos, reunindo mais de 36 mil nomes de pessoas ainda sem paradeiro conhecido. O partido de Machado também ativou voluntários para a coleta de doações e buscou apoio da diáspora venezuelana.
Machado enfatizou que sua intenção é unir as pessoas, promovendo a coesão não apenas para lidar com a emergência, mas também para iniciar o processo de cura do país. A líder opositora, impedida de concorrer às eleições presidenciais de 2024, nas quais o atual líder Nicolás Maduro declarou vitória, conta com o apoio popular. Uma apuração independente conduzida pela oposição indicou Edmundo González como o verdadeiro vencedor da eleição, candidato este apoiado por Machado.
## Intervenção Americana
O terremoto surgiu como uma oportunidade para Machado retornar à Venezuela pela primeira vez desde que deixou o país em dezembro do ano passado. Desde a prisão de Maduro pelos Estados Unidos em janeiro, Machado tem defendido um retorno e a condução de uma transição democrática. Contudo, a administração do ex-presidente Donald Trump passou a apoiar Delcy Rodríguez após a saída de Maduro, elogiando as reformas econômicas implementadas, especialmente no setor petrolífero. Washington não estabeleceu um cronograma para novas eleições.
Fontes do governo americano, falando sob condição de anonimato, indicaram que a administração Trump demonstrava frustração com Machado e tentou dissuadi-la de retornar à Venezuela. Segundo um dos funcionários, Machado chegou a solicitar apoio de Washington para viajar à Venezuela. Os Estados Unidos, no entanto, avaliavam que o retorno de Machado visava liderar protestos contra Rodríguez e pressionar por mudanças políticas em um momento que exigia foco na recuperação das áreas afetadas. Embora não pudessem impedir o retorno da opositora, os EUA não se dispuseram a facilitar sua viagem.
## Tensões e Acusações
Ao tomar conhecimento da intenção de Machado de retornar, Rodríguez teria determinado o fechamento do tráfego aéreo comercial para Caracas, o que, segundo um funcionário americano, impediria a chegada de centenas de profissionais essenciais para as operações de socorro. Machado acusou o governo de fechar o espaço aéreo para barrar seu retorno, mas não apresentou provas. O governo venezuelano não comentou as acusações.
Em meio ao receio de que as críticas à sua gestão pós-desastre minem sua autoridade, Rodríguez classificou as acusações como "narrativas produzidas em laboratórios de propaganda". Ela assegurou que as equipes de resgate foram prontamente mobilizadas e equipadas, o que contrasta com relatos de moradores que descreveram uma resposta oficial lenta e insuficiente nas primeiras 48 horas após os tremores.