EUA e Irã: Analista prevê 'guerra de atrito administrada' como novo normal
Analista define conflito EUA-Irã como 'guerra de atrito administrada'. Ciclo de ataques e tréguas se torna o novo normal, com impacto global e desafios para o Brasil, especialmente no agronegócio.

O complexo cenário de conflito entre os Estados Unidos e o Irã foi classificado por Uriã Fancelli, analista de relações internacionais, como uma "guerra de atrito administrada". Essa definição abrange a atual dinâmica de escaladas e cessar-fogo que, segundo ele, tende a se tornar o "novo normal" na região. A situação se caracteriza por um ciclo contínuo de tréguas breves, rearmamento, testes de limites, retaliações e novas pausas, evitando um confronto em larga escala, mas sem configurar paz.
Fancelli explica que o Irã tem utilizado os períodos de trégua para reconstruir suas capacidades militares, recuperando estoques de mísseis e lançadores, que por sua vez se tornam alvos dos EUA. Essa capacidade crescente do Irã em sustentar ataques torna um novo confronto mais provável. Uma mudança estrutural observada é o crescente poder iraniano sobre o Estreito de Ormuz, ponto crucial para o comércio marítimo global, uma influência que dificilmente retrocederá.
O analista aponta que a fragilidade dos recentes cessar-fogo reside na divisão de poder dentro do Irã. O acordo firmado pelo presidente civil Masoud Pezeshkian não reflete a autoridade da Guarda Revolucionária Islâmica, organização que detém o controle sobre o Estreito de Ormuz e vê sua influência ameaçada por qualquer acordo que minimize sua importância estratégica. A manutenção do controle sobre o estreito é, para a Guarda, um instrumento vital de barganha.
Do lado americano, a avaliação de Fancelli é que Donald Trump possui incentivos para evitar uma guerra prolongada, especialmente diante de potenciais desastres econômicos e da proximidade das eleições. No entanto, a necessidade de demonstrar força, possivelmente percebida como fraqueza em caso de contenção, pode ter levado a uma escalada controlada. Trump, conhecido por sua estratégia de "escalar e negociar", indicou que o Irã buscava um acordo.
Para o Brasil, o conflito representa um paradoxo. Por um lado, a alta dos preços do petróleo pode beneficiar a Petrobras. Por outro, o país enfrenta o aumento dos custos de diesel e fertilizantes, com o agronegócio sendo o setor mais exposto. O encarecimento do diesel afeta toda a cadeia logística, elevando o custo do frete e dos alimentos. A dependência brasileira de importações de diesel e fertilizantes agrava o impacto, mesmo com a Petrobras segurando reajustes internos.