El Salvador: ONG aponta 470 mortes sob custódia em regime de exceção
Anistia Internacional relata mais de 470 mortes sob custódia em El Salvador desde 2022, criticando regime de exceção, prisões em massa e condições precárias.

Mais de 470 pessoas morreram sob custódia do Estado em El Salvador desde março de 2022, quando o regime de exceção foi implementado. A denúncia é da ONG de direitos humanos Anistia Internacional, em seu relatório anual sobre a situação global dos direitos humanos. A organização aponta que o país consolidou um modelo repressivo com o prolongamento contínuo da medida, que tem sido renovada desde sua decretação inicial.
## Encarceramento em Massa e Violações
O regime de exceção, instaurado após uma onda de violência relacionada a gangues, permitiu uma política de "guerra contra as gangues" liderada pelo presidente Nayib Bukele. Embora a medida tenha resultado na redução dos índices de criminalidade, a Anistia Internacional alerta que ela praticamente erodiu a democracia salvadorenha. O país se tornou o que mais prende no mundo, com aproximadamente 1.650 detidos a cada 100 mil habitantes. Do total de quase 110 mil encarcerados, cerca de 90 mil estariam presos sem provas suficientes, segundo a ONG, baseando-se em dados de entidades locais e internacionais.
O relatório detalha que muitas prisões foram motivadas pela pressão sobre a polícia para atingir cotas diárias de detenções, com base em evidências falsas, não corroboradas, denúncias anônimas ou perfis discriminatórios. Mudanças legislativas recentes também restringiram o direito à defesa, ampliando o período de prisão preventiva para dois anos e permitindo o agrupamento de vários réus em um único processo, o que facilita julgamentos em massa.
## Condições Precárias e Falta de Transparência
As centenas de mortes sob custódia, que algumas organizações locais estimam ultrapassar 547, são atribuídas a tortura, falta de cuidados médicos e condições insalubres de detenção. A Anistia Internacional ressalta que nenhuma dessas mortes foi investigada de forma independente. A Organização Mundial Contra a Tortura classificou El Salvador como um país de altíssimo risco de tortura e maus-tratos, com práticas sistemáticas documentadas de espancamentos e humilhações.
Adicionalmente, milhares de detidos permaneceram incomunicáveis com familiares e advogados, sem informações oficiais sobre seu paradeiro ou estado de saúde. Essa falta de transparência, denunciada repetidamente, gera angústia nas famílias e fomenta abusos e corrupção dentro das prisões. O governo salvadorenho, por sua vez, nega as acusações de violações de direitos humanos.