Dote na Índia: Prática ilegal dispara feminicídios e mata 16 mulheres por dia
Estudo do King's College de Londres revela que a prática ilegal de dotes de casamento na Índia dispara feminicídios, com 15 a 16 mulheres morrendo diariamente devido a exigências financeiras.

Um estudo antropológico do King's College de Londres aponta para um alarmante aumento nos feminicídios na Índia, diretamente ligados à persistente prática de dotes de casamento. Embora a exigência de bens materiais ou dinheiro por parte da família do noivo seja proibida por lei desde 1961, a tradição continua fortemente enraizada e associada a um crescimento preocupante nos assassinatos de mulheres.
## Dote como Transação Financeira e Fonte de Violência
A pesquisa revela que o dote, apesar de ilegal, evoluiu para uma exigência de mercado matrimonial, com valores escalando conforme o status social do noivo. As demandas podem incluir dinheiro em espécie, joias valiosas, carros de luxo e motocicletas. A incapacidade das famílias das noivas de cumprir essas exigências financeiras frequentemente resulta em assédio, violência física e, em casos extremos, na morte das mulheres, incluindo serem queimadas vivas. Os números são chocantes: enquanto no início dos anos 1990 a Índia registrava cerca de 2 mil mortes anuais relacionadas a dotes, o estudo aponta que o número atual ultrapassa 6.500 mortes por ano. Isso equivale a uma média de 15 a 16 mulheres mortas diariamente no país por essa causa.
A imprensa indiana cobre esses casos com uma certa banalidade, refletindo uma sociedade que normalizou o casamento como uma transação financeira. Para muitas famílias, ter um filho homem é visto como um investimento, com recursos direcionados à sua educação e formação profissional. O dote, nesse contexto, é encarado como uma forma de recuperar esses investimentos e obter retorno financeiro. A noiva, quando não atende às expectativas econômicas, passa a ser vista como um "mau negócio", levando à sua eliminação.
## Feminicídio Estrutural e Indiferença Social
O estudo do King's College de Londres classifica essa situação como um feminicídio estrutural, invisibilizado por uma "organização da indiferença". Enquanto nos anos 1980 casos de mulheres queimadas vivas por questões de dote geravam escândalos públicos, as agressões hoje se tornam mais insidiosas. Em muitos cenários, o assédio contínuo praticado contra as esposas leva-as ao suicídio, configurando outra forma trágica de violência relacionada à prática ilegal.