Colômbia: Falha em programas de apoio leva fazendeiros de volta à coca
Agricultores colombianos desistem de programas governamentais de substituição de cultivos de coca devido à falta de apoio financeiro e técnico, retornando ao plantio da planta.

Milhares de agricultores colombianos que tentaram abandonar o cultivo de coca, a matéria-prima da cocaína, viram seus esforços frustrados pela falta de apoio financeiro e técnico prometido por programas governamentais. Muitos, desiludidos, retornaram ao plantio da planta em 2024, após a falha das iniciativas em oferecer alternativas sustentáveis.
O caso de Perea, um agricultor da província de Meta, ilustra a dificuldade. Ele substituiu seus arbustos de coca por culturas legais como mandioca e banana, aderindo a um programa de substituição de cultivos. Contudo, a escassez de estradas, inundações recorrentes e a ausência da assistência financeira prometida o levaram de volta ao cultivo ilícito. "É uma tragédia", lamenta Perea, "mas, quando você tem filhos e não tem trabalho, que escolha lhe resta?"
A folha de coca, embora tenha usos ancestrais em chás e medicamentos, é hoje majoritariamente processada para a produção de cocaína, com a Colômbia respondendo por cerca de 70% da oferta global. A planta oferece vantagens econômicas significativas, com colheitas rápidas e um mercado estabelecido, o que impulsiona economias locais, podendo elevar o PIB municipal em até 10% em algumas regiões.
## Desilusão com Programas de Substituição
Programas como o Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos Ilícitos (PNIS), criado a partir do acordo de paz de 2016 com as FARC, visavam erradicar plantações de coca em troca de apoio financeiro. Famílias como a de Elena Hernández receberiam cerca de R$ 57 mil ao longo de dois anos, além de assistência técnica. A iniciativa, que começou com promessas de desenvolvimento territorial, enfrentou severos obstáculos.
A falta de comprometimento governamental, atrasos nos pagamentos e a precária presença estatal nas áreas rurais minaram o sucesso do PNIS. A coordenação entre órgãos públicos falhou em levar o apoio prometido às comunidades. Com a mudança de prioridades políticas, o ímpeto do programa diminuiu. Governos posteriores, como o de Iván Duque, focaram mais em erradicação e segurança, enquanto o atual presidente, Gustavo Petro, herdou um programa com atrasos e dificuldades.
## Níveis Recordes de Produção e Violência
Apesar dos esforços de substituição, o plantio de coca na Colômbia atingiu níveis recordes, ultrapassando 250 mil hectares. A indústria da coca, que atraiu muitos para regiões como Guaviare na década de 1990 em busca de remuneração, também trouxe consigo violência e insegurança, com grupos armados disputando o controle territorial. Os esforços governamentais de erradicação e prisões, embora tenham impactado a renda das famílias, não foram suficientes para deter o cultivo.
A decepção dos agricultores com os programas falhos abre um ciclo vicioso, onde a falta de oportunidades legais e a dificuldade em comercializar produtos lícitos, agravadas por problemas logísticos e ambientais como inundações, empurram os cultivadores de volta para a economia da coca. A situação expõe a complexidade do desafio colombiano em erradicar o narcotráfico, onde a viabilidade econômica das alternativas legais é crucial para o sucesso a longo prazo.