China x EUA: Peru Navega Entre Potências com Legado Fujimori
Eleita no Peru, Keiko Fujimori enfrenta o desafio de equilibrar relações com EUA e China, herdando um legado de abertura comercial ao país asiático e a crescente disputa de influência americana na América Latina.

A ascensão de Keiko Fujimori à presidência do Peru, após uma vitória apertada em recente eleição, coloca o país andino em um complexo cenário geopolítico, marcado pelo legado de seu pai, Alberto Fujimori, e pela crescente disputa de influência entre Estados Unidos e China na América Latina. A política peruana, com formação nos EUA e propostas de mercado e combate ao crime, acena para Washington, mas demonstra clara intenção de manter os robustos laços comerciais com Pequim. Essa postura pragmática, que busca um "alinhamento estratégico equilibrado", evidencia os limites da ofensiva do governo Donald Trump para reverter o realinhamento latino-americano em favor da China.
## O Legado de Alberto Fujimori e a Porta Aberta para a China
A aproximação entre Peru e China teve início há 35 anos, com a primeira viagem de Alberto Fujimori a Pequim. Buscando capital e apoio internacional para um programa de reformas neoliberais, Fujimori encontrou na China, então isolada diplomaticamente após os eventos da Praça da Paz Celestial, um parceiro estratégico. O ex-presidente realizou quatro viagens à China em seu mandato, incentivou a participação peruana na APEC e lançou as bases para que Pequim, duas décadas depois, se tornasse o principal parceiro comercial do Peru, superando os EUA. O investimento chinês acumulado no Peru, desde os anos 1990, já ultrapassa os US$ 30 bilhões, com projetos emblemáticos como o Porto de Chancay.
## O Porto de Chancay: Símbolo da Disputa Geopolítica
O Porto de Chancay, inaugurado no final de 2024, é um dos maiores símbolos dessa disputa. Construído pela estatal chinesa COSCO Shipping Ports e inaugurado pelo presidente Xi Jinping, o porto de US$ 1,3 bilhão visa reduzir o tempo de viagem para Xangai e consolidar o Peru como um centro logístico no Pacífico. Contudo, os EUA o veem não apenas como uma vantagem comercial para a China, mas também como um potencial risco à segurança, com a possibilidade de uso pelas Forças Armadas chinesas. O aumento das tensões levou Trump a nomear um novo embaixador em Lima, que, desde o início, enfrentou desafios para promover a agenda americana, em meio a escândalos políticos locais.
## Keiko Fujimori: Pragmatismo em Meio à Tensão
Keiko Fujimori, ao herdar esse cenário, sinaliza uma política externa pragmática. Embora formada nos EUA e com uma plataforma que agrada a Washington, ela rejeita um "alinhamento automático com qualquer potência". Essa posição "estrategicamente equilibrada" sugere que o Peru continuará a navegar entre as duas superpotências, buscando maximizar seus interesses nacionais. A herdeira política, contudo, terá que lidar com a volatilidade política interna, que já derrubou governos e empossou sucessores em rápida sucessão, como ocorreu com o último presidente, José Jerí, envolvido em um escândalo de reuniões secretas com empresários chineses.