Ateliê de Moda Venezolano Transforma Tecidos Nobres em Sacos Funerários
Ateliê de moda venezuelano troca tecidos nobres por materiais impermeáveis para produzir sacos funerários e auxiliar vítimas de terremotos. Iniciativa doa mil itens e mostra solidariedade em meio à tragédia.

Diante da devastação causada por dois fortes terremotos em 24 de junho, que abalaram Caracas e o estado de La Guaira, na Venezuela, um ateliê de moda em Maracay, estado de Aragua, decidiu redirecionar sua produção. As linhas coloridas e tecidos nobres, antes destinados a vestidos e peças de alta costura, foram substituídos por polietileno e materiais impermeáveis para a confecção de sacos funerários.
O estilista Efraín Mogollón, fundador da grife ByEfraínMogollón há 15 anos, lidera a iniciativa. Ao se deparar com a magnitude da tragédia, que já registrou mais de 4.700 mortos segundo o regime, ele questionou como sua equipe poderia auxiliar. A resposta veio através da costura, habilidade central do ateliê.
## Adaptação de Produção e Impacto Social
Em poucas semanas, as 22 costureiras do ateliê deixaram de lado a seda, o linho e o tafetá para trabalhar com polietileno de alta densidade e tecidos impermeáveis. O objetivo é produzir sacos funerários de três metros de comprimento por 90 centímetros de largura, essenciais para equipes de resgate e familiares que buscam recuperar e identificar corpos sob os escombros. As peças, muitas vezes adornadas com imagens do Sagrado Coração de Jesus, visam oferecer um mínimo de dignidade em meio à dor.
Grismary Villegas, uma das costureiras, compartilhou o impacto inicial da tarefa, mas ressaltou o sentimento de estar fazendo o bem. "É uma forma de apoiar as pessoas neste momento de dor", afirmou, destacando a importância da união do país em tempos difíceis.
## Resposta à Crise e Desafios Logísticos
Com hospitais e necrotérios superlotados, o governo venezuelano precisou improvisar, utilizando silos no porto de La Guaira como depósito temporário de corpos. A Organização das Nações Unidas (ONU) estimou que o número de desaparecidos pode chegar a 50 mil, anunciando o envio de 10 mil sacos para cadáveres.
Até o momento, o ateliê de Mogollón já havia confeccionado mil sacos, doando metade ao serviço forense em Caracas e o restante diretamente a equipes de resgate e famílias afetadas. A produção diária chegou a 200 sacos, evidenciando o esforço e a capacidade de resposta da equipe diante da emergência. A experiência de visitar a "zona zero" do desastre, segundo Mogollón, transformou a perspectiva de toda a equipe, reforçando o propósito humanitário do trabalho.
A iniciativa do ateliê de moda, embora nascida de uma tragédia, demonstra a capacidade de adaptação e solidariedade em momentos de crise, transformando a arte da costura em um ato de apoio vital às vítimas dos terremotos na Venezuela.