Amazônia: Seca Histórica Pode Causar Danos Irreversíveis

Estudo revela que seca histórica na Amazônia de 2023-2024 pode causar danos irreversíveis, com mais da metade da floresta sem recuperação total em até sete anos.

Amazônia: Seca Histórica Pode Causar Danos Irreversíveis

A Amazônia pode enfrentar consequências duradouras de secas recentes, com um estudo indicando que mais da metade das áreas intactas afetadas pela estiagem de 2023-2024 pode não se recuperar completamente mesmo após sete anos. Este período de sete anos é o tempo máximo que a floresta levou para retornar às condições anteriores à seca nos últimos 30 anos, segundo uma análise publicada na revista científica Pnas. As secas de 2023 e 2024, intensificadas pelo fenômeno El Niño e pelo aquecimento das águas do Atlântico Norte, causaram perdas severas de umidade e biomassa nas árvores, superando a média histórica desde 1992.

## Impacto e Recuperação da Floresta

O estudo utilizou dados de satélite de três décadas para correlacionar a umidade e a biomassa das plantas. Em comparação com secas anteriores, como a de 2015 (sete anos para recuperação), 2005 (cinco anos) e 2010 (três anos), a atual estiagem levanta preocupações sobre a resiliência da floresta. A pesquisadora Flávia Costa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), destacou a extensão da seca de 2023-2024, que resultou na redução drástica dos níveis de rios importantes. O Rio Negro, por exemplo, atingiu seu nível mais baixo em 122 anos em Manaus, em outubro de 2024.

## Recuperação Hídrica vs. Funcionalidade Ecológica

Embora as chuvas associadas ao fenômeno La Niña tenham contribuído para a recuperação do nível da superfície da água em 2025, superando a média histórica em 2,6%, a recuperação hídrica não garante a restauração completa da funcionalidade ecológica da floresta. O agrometeorologista Gabriel Brito Costa, da Universidade Federal do Oeste do Pará, ressalta que a análise deve incluir outros fatores como evapotranspiração e troca de carbono. A maior frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, impulsionadas pelas mudanças climáticas, reduzem o tempo de recuperação dos ecossistemas. Luiz Eduardo Oliveira e Cruz de Aragão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), alertam que a floresta tende a perder biomassa, diminuir sua produtividade e sua capacidade de reciclar água e manter características microclimáticas originais. Um estudo de 2018 na Nature já indicava que a seca de 2005 transformou temporariamente a Amazônia em fonte de carbono, evidenciando a vulnerabilidade do bioma.