Corações de Fisiculturistas: Necropsias Revelam Riscos Cardíacos
Mortes súbitas entre fisiculturistas levantam preocupações sobre riscos cardíacos. Necropsias mostram corações aumentados, e o abuso de anabolizantes é apontado como fator contribuinte, mas a comprovação é complexa.

O debate sobre a saúde cardíaca de fisiculturistas ganhou força com a recente morte do atleta baiano Mailson Araújo, de 35 anos, ocorrida em Alagoinhas (BA). Embora a causa exata de seu falecimento ainda não tenha sido divulgada, o caso se soma a uma série de mortes súbitas entre praticantes da modalidade, reacendendo discussões sobre os riscos associados ao esporte.
## Corações Aumentados: Adaptação ou Doença?
Casos como o do fisiculturista americano Dallas McCarver, que morreu aos 26 anos com um coração pesando 833 gramas – mais do dobro do normal –, ilustram a preocupação. A necropsia de McCarver apontou para um espessamento do ventrículo esquerdo e acúmulo de placas de gordura nas artérias. Especialistas explicam que o coração, como um músculo, pode aumentar de tamanho em resposta a treinos intensos. O endocrinologista Clayton Macedo compara o crescimento do músculo cardíaco ao do bíceps, mas ressalta que um coração excessivamente grande e com dificuldade de bombear sangue pode levar a mal súbito.
## Anabolizantes: Um Fator Difícil de Comprovar
A análise toxicológica de Dallas McCarver revelou níveis de testosterona sintética mais de 30 vezes acima do normal, levando a conclusão de que o abuso de esteroides anabolizantes contribuiu para sua morte. No entanto, comprovar a ligação direta entre anabolizantes e mortes cardíacas nem sempre é simples. Outros casos recentes, como o de Gabriel Ganley (22 anos), Edson da Silva Ferreira (40 anos) e Wanderson da Silva Moreira (30 anos), que morreu durante uma competição, reforçam a necessidade de investigação sobre os fatores envolvidos.
## Estatísticas Alarmantes e Prevenção
Um estudo publicado no European Heart Journal trouxe dados preocupantes: a taxa de morte súbita cardíaca entre fisiculturistas profissionais é cinco vezes maior do que entre amadores. A pesquisa acompanhou mais de 20 mil atletas por 16 anos e indicou uma média de sete mortes a cada cem atletas no Mr. Olympia, com idade média de 36 anos. O cardiologista Luiz Eduardo Fonteles Ritt, da Sociedade Brasileira de Cardiologia na Bahia, distingue entre o aumento do coração como adaptação fisiológica ao exercício e o desenvolvimento de doenças. Ele enfatiza que o processo de hipertrofia cardíaca adaptativa tende a regredir com a interrupção do treinamento, mas o uso de substâncias pode alterar drasticamente esse quadro, aumentando os riscos.