Copa expõe dilema: futebol ignora acusações de violência sexual

Copa do Mundo de 2026 expõe a falta de política da FIFA para lidar com jogadores acusados de violência sexual, contrastando com medidas mais firmes em outros esportes.

Copa expõe dilema: futebol ignora acusações de violência sexual

A Copa do Mundo de 2026 trouxe à tona um dilema persistente no futebol internacional: a forma como as entidades do esporte lidam com atletas que enfrentam acusações de estupro e violência sexual. Casos como os dos jogadores Thomas Partey (Gana), Achraf Hakimi (Marrocos) e Ryan Mendes (Cabo Verde) evidenciam a falta de uma política unificada e clara por parte da FIFA.

Thomas Partey, que jogava pelo Arsenal, foi acusado de estupro por sete mulheres. Embora se declare inocente e aguarde julgamento em junho de 2027, ele foi convocado para a seleção de Gana, mas teve o visto negado pelo Canadá devido às acusações. Achraf Hakimi, capitão de Marrocos, enfrenta um processo na França por suposto estupro em sua residência. Sua defesa alega que recorrerá da decisão. Já Ryan Mendes, capitão de Cabo Verde, é investigado pela polícia da Nova Zelândia por um suposto estupro contra uma tradutora brasileira.

Esses casos não são isolados. Jogadores como os japoneses Kaishu Sano e Junya Ito foram investigados, com Sano chegando a ser preso, mas as acusações foram arquivadas. O astro Cristiano Ronaldo também enfrentou um processo por estupro nos EUA, que foi arquivado após um acordo financeiro.

A situação reacende o debate sobre a presunção de inocência versus a necessidade de proteger vítimas e a sociedade. Enquanto nenhum dos atletas citados foi condenado, a convocação e participação em um torneio global levantam questionamentos sobre os valores que o esporte deve defender.

Outros esportes já estabeleceram políticas mais robustas. Na NFL (futebol americano), jogadores indiciados por crimes de violência podem ser afastados com licença remunerada. No beisebol, a MLB pune atletas após investigações internas, mesmo sem condenação criminal, podendo impor planos de reabilitação.

A dificuldade em provar crimes sexuais, que muitas vezes ocorrem sem testemunhas e com investigações que se arrastam, complica a tomada de decisão. A presunção de inocência é um direito fundamental, mas a gravidade das acusações e a dificuldade probatória levam muitos países, como o Brasil, a dar maior peso à palavra da vítima em apurações de violência sexual.

A FIFA, contudo, carece de uma política geral para o afastamento provisório de atletas sob tais acusações. As decisões, na prática, recaem sobre as confederações e clubes, gerando inconsistências e expondo a fragilidade do esporte diante de um problema complexo e delicado.