Biógrafo de Pelé critica autocomplacência do futebol brasileiro
Biógrafo de Pelé, Andrew Downie, critica o futebol brasileiro por se apegar ao passado e ignorar a necessidade de tática e organização, afirmando que o país não é mais referência mundial em talento individual.

O jornalista escocês Andrew Downie, autor de biografias de Pelé e Sócrates, lançou um alerta sobre a mentalidade do futebol brasileiro. Segundo ele, o país precisa "parar de se gabar" de suas cinco estrelas de Copa do Mundo e "descer do salto", pois não é mais a referência mundial em talento individual.
## O Passado Não Garante o Futuro
Downie, que viveu no Brasil e cobriu o futebol nacional por veículos internacionais, como The New York Times e The Guardian, argumenta que a era do "futebol arte", baseado no improviso e no talento individual, ficou para trás. Ele observa que outras seleções europeias e sul-americanas desenvolveram jogadores com habilidades comparáveis ou superiores aos brasileiros. Nomes como Messi, Olise, Harry Kane, Martínez e Courtois são citados como exemplos de talentos que rivalizam ou superam os brasileiros em suas posições.
"Não é como no passado, quando dava para resolver tudo com um drible", afirma Downie, contrastando a situação atual com a época em que o Brasil possuía uma vantagem técnica inquestionável. Ele aponta que a disciplina tática e a organização coletiva se tornaram fatores determinantes no futebol moderno, superando a importância do drible isolado. O biógrafo sugere que o comportamento exibido por Neymar, ao cobrar o goleiro norueguês Ørjan Nyland após converter um pênalti na Copa do Mundo, demonstra uma desconexão com a realidade atual do esporte, onde o respeito se constrói pela performance e não apenas pela história.
## Necessidade de Adaptação e Organização
O jornalista ressalta que treinadores de ponta, como Guardiola, Mourinho e Ancelotti, priorizam sistemas táticos e a integração dos jogadores em um esquema de jogo. Essa abordagem contrasta com a antiga confiança brasileira na espontaneidade e na "malandragem" para obter vitórias. Para Downie, a criatividade individual ainda é valorizada, mas deve estar inserida em um contexto tático bem definido para ser eficaz.
A instabilidade institucional dentro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também é apontada como um fator prejudicial. A rápida sucessão de dirigentes, com uma média de um novo comandante a cada 14 meses desde o fim da gestão de Ricardo Teixeira, contribui para a falta de um planejamento de longo prazo e para a dificuldade em implementar mudanças estruturais necessárias. O biógrafo sugere que a seleção brasileira precisa de um projeto consistente, focado no desenvolvimento tático e na adaptação às novas dinâmicas do futebol global, em vez de se apegar a glórias passadas.