Famílias brasileiras falham em estimular filhos; estudo da OCDE revela o porquê

Estudo da OCDE revela que mais da metade das famílias brasileiras raramente lê com os filhos ou realiza atividades educativas em casa, impactando o desenvolvimento infantil e reforçando desigualdades.

Famílias brasileiras falham em estimular filhos; estudo da OCDE revela o porquê

Um estudo internacional conduzido pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) revelou um cenário preocupante sobre o desenvolvimento infantil no Brasil, com dados coletados no Ceará, Pará e São Paulo. A pesquisa, denominada Estudo Internacional das Aprendizagens e do Bem-estar da Criança (IELS), indica que mais da metade das famílias brasileiras raramente ou nunca lêem livros com seus filhos pequenos. Além disso, a maioria das famílias pouco canta, conta histórias ou brinca com conceitos matemáticos no cotidiano.

Os resultados do IELS vão além das notas e pontuações, oferecendo um panorama sobre a interação entre o ambiente escolar e familiar no desenvolvimento da criança. O estudo destaca a necessidade urgente de políticas públicas que reconheçam as interações diárias entre adultos e crianças como um pilar fundamental para combater as desigualdades educacionais.

## Desigualdades se manifestam desde cedo

As disparidades no aprendizado já são evidentes nos primeiros anos de vida. O estudo aponta que as diferenças em linguagem, pensamento matemático e habilidades socioemocionais, que se manifestam já aos 5 anos de idade, estão associadas a questões de cor e raça. Esse achado reforça a urgência em garantir acesso à creche e pré-escola de qualidade, além de aprimorar as práticas pedagógicas e as interações dentro dessas instituições.

## O papel crucial do ambiente doméstico

Embora o investimento na qualidade da educação formal seja essencial, o estudo da OCDE enfatiza que a escola não é a única resposta para os desafios do desenvolvimento infantil. O ambiente de aprendizagem em casa possui uma forte associação com o progso das crianças, e é justamente nesse aspecto que o cenário se mostra mais desafiador. A baixa frequência de atividades como a leitura compartilhada com os filhos é uma das formas pelas quais a desigualdade se consolida, independentemente do que ocorre no contexto escolar.

As autoras do estudo, Beatriz Cardoso e Nicole Paulet Piedra, ressaltam que o debate sobre aprendizagem no Brasil precisa considerar que o nível socioeconômico da família ainda determina significativamente o desenvolvimento infantil, mesmo com investimentos na escola. No entanto, essa realidade não é imutável.

## Potencial educador das famílias

Evidências demonstram que interações cotidianas ricas e regulares têm um impacto cumulativo ao longo da vida da criança. Não se trata de sobrecarregar as famílias com novas tarefas, mas de potencializar as atividades já existentes. Uma simples atividade como preparar uma receita juntos, lendo o passo a passo e conversando sobre os ingredientes, sabores e memórias, pode se tornar uma poderosa experiência de desenvolvimento. A presença do adulto, a escuta ativa e o reconhecimento do potencial de aprendizado em rotinas comuns são os elementos transformadores.

O próximo passo, segundo as pesquisadoras, é investir em iniciativas que ofereçam apoio estruturado e orientações acessíveis às famílias, reconhecendo seu potencial educador. A responsabilidade de criar condições para o desenvolvimento no ambiente doméstico não deve recair apenas sobre as famílias, muitas vezes já sobrecarregadas. É fundamental integrar essas ações a políticas intersetoriais que articulem os contextos escolar e familiar, fortalecendo as famílias e tratando o desenvolvimento na primeira infância como uma questão de equidade e responsabilidade coletiva.