63 Milhões de Brasileiros Adultos Fora da Escola: Um Desafio Urgente
Mais de 63 milhões de brasileiros adultos não concluíram a educação básica. Relatório aponta mortalidade como principal fator de queda na demanda por EJA e alerta para janela de oportunidade.

Um estudo inédito revela um cenário preocupante para a educação brasileira: 63,9 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais, o que representa 37,3% da população nessa faixa etária, abandonaram os estudos antes de concluir a educação básica. O dado, divulgado pelo relatório “População de 15+ fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho: diagnóstico e evidências para políticas públicas”, evidencia um desafio persistente no país.
A pesquisa, realizada por diversas fundações em cooperação com a Unesco, destaca que, embora o número de pessoas fora da escola venha caindo, a principal causa não é o avanço de políticas públicas. Segundo o levantamento, 51% da redução na demanda pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) desde 2012 ocorreu devido à mortalidade da população-alvo, em detrimento da escolarização efetiva. Para cada pessoa que concluiu os estudos através da EJA no período, seis morreram sem terminar a educação básica.
## Última Janela de Oportunidade
O documento alerta que os próximos 10 a 15 anos representam a última chance para alcançar as gerações nascidas entre as décadas de 1960 e 1980. A oferta da modalidade EJA tem diminuído drasticamente: entre 2008 e 2024, o número de municípios sem turmas de EJA mais que dobrou, saltando de 493 para 1.092. Atualmente, apenas 24,6% das escolas brasileiras oferecem a modalidade, deixando uma parcela significativa da população adulta sem acesso a oportunidades de recomeço.
## Baixa Prioridade e Impacto Econômico
Os pesquisadores atribuem a situação à baixa prioridade histórica dada à EJA, que por 16 anos recebeu o menor fator de ponderação do Fundeb. A falta de material didático atualizado desde 2014 e a reduzida oferta de formação de professores para essa modalidade também são fatores críticos. A incompletude educacional gera um custo estimado de R$ 66 bilhões anuais em renda perdida. A renda domiciliar per capita de quem não concluiu a educação básica é R$ 1.427, menos da metade dos R$ 2.777 de quem finalizou essa etapa.
A simulação do estudo indica que se metade dessa população, cerca de 32,5 milhões de pessoas, concluísse a educação básica, o ganho potencial seria de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB). A situação de Paulo Ricardo Santos, 42 anos, morador do Rio de Janeiro, exemplifica a luta e a esperança desses indivíduos. Após abandonar os estudos aos 23 anos, ele conseguiu retomar e concluir o ensino médio através de uma turma de EJA na Redes da Maré e agora almeja a faculdade, atuando como redutor de danos na comunidade.