Tesouro Nacional se prepara para intervir no mercado de títulos públicos
Tesouro Nacional sinaliza possível intervenção no mercado de títulos públicos para conter alta das taxas reais de NTN-B. Declarações de Rogério Ceron geram expectativa de atuação governamental após cancelamentos anteriores.

O mercado financeiro brasileiro entrou em estado de alerta nesta terça-feira (7) diante da expectativa de um leilão de títulos públicos indexados ao IPCA (NTN-B) e da possibilidade de intervenção direta do Tesouro Nacional. Rogério Ceron, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, expressou preocupação com as taxas reais praticadas nos títulos públicos e declarou que o Tesouro está preparado para atuar no mercado.
As declarações foram interpretadas como um sinal de que o governo pode intervir para controlar a alta dos juros, especialmente após dois cancelamentos de ofertas de títulos no ano, em março e junho, para conter a escalada das taxas. O cronograma oficial do Tesouro Nacional prevê o leilão de NTN-B com vencimentos em 2031, 2037 e 2050, embora a oferta efetiva ainda possa ser definida. Há também a possibilidade de um novo leilão de recompra de títulos, prática já utilizada em março para estabilizar o mercado.
O Tesouro tem reduzido a oferta de NTN-B em meio à disparada das taxas. Dados compilados pela Eytse Estratégia indicam que as emissões de NTN-B em junho somaram apenas R$ 6 bilhões, representando 4% do total emitido pelo Tesouro no mês – a menor participação anual. Esse volume ficou significativamente abaixo das médias de maio (R$ 3,7 bilhões semanais) e de 2025 (R$ 6,4 bilhões semanais).
No acumulado de 2025, as emissões líquidas de NTN-B atingiram R$ 68,2 bilhões, correspondendo a 9% do total emitido no ano. A taxa média dessas emissões em junho alcançou 8%, um patamar considerado historicamente muito elevado pela Eytse, superando as estimativas de juro real neutro. Em contrapartida, os investidores aumentaram suas compras em mais de 70%.
O cancelamento de uma oferta de NTN-B em 23 de junho serviu para aliviar temporariamente os prêmios, indicando que o Tesouro não pretende validar qualquer nível de taxa. Naquela ocasião, o órgão cancelou leilões de NTN-B e de títulos prefixados, mantendo apenas a oferta de LFT e recorrendo a leilões de compra e venda para suportar o mercado, que sofria com a forte alta dos juros futuros, influenciada pela incerteza geopolítica no Oriente Médio.
Em março, o Tesouro já havia realizado uma intervenção semelhante, cancelando leilões e recomprando R$ 12,1 bilhões em títulos diante da escalada dos juros futuros. Naquele momento, o órgão atuou como comprador de títulos prefixados com vencimentos entre 2028 e 2031, ajudando a reduzir a pressão sobre as taxas sem vender novos papéis aos participantes.
Analistas do mercado financeiro estão divididos quanto à situação das NTN-B. Uma corrente acredita que os títulos já estão precificados adequadamente e só se tornarão atrativos com uma queda consistente da inflação, idealmente abaixo de 4%. Outra visão aponta para uma disfuncionalidade no mercado secundário, argumentando que a inflação raramente ficou abaixo de 4% no histórico recente e que uma normalização espontânea dos preços é improvável, justificando uma recompra pelo Tesouro. Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, observou que o anúncio de Ceron, sinalizando a vigilância do Tesouro e a possibilidade de intervenção, já provocou reações na curva de juros, com o mercado demonstrando certo apetite pelos papéis.