Tarifaço de Trump: Brasil sob pressão em ano eleitoral decisivo

Analista Ruchir Sharma alerta que o Brasil enfrenta riscos fiscais e o impacto de tarifas americanas na economia e na eleição de 2026. A decisão de Trump sobre tarifas e o déficit fiscal crescente pressionam o país.

Tarifaço de Trump: Brasil sob pressão em ano eleitoral decisivo

O Brasil se encontra em um momento crítico às vésperas de uma eleição considerada crucial no cenário global de 2026, enfrentando um cenário econômico adverso com a crescente preocupação sobre o déficit fiscal e a imposição de novas tarifas pelo governo de Donald Trump. Segundo Ruchir Sharma, estrategista global e chairman da Rockefeller International, qualquer deslize nas contas públicas em um ambiente de elevação do custo do capital global pode gerar "estrago sério" na economia brasileira.

## Impacto das Tarifas Americanas

A decisão do governo americano de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, com previsão de entrada em vigor em 22 de julho, coloca o Brasil como o segundo país mais taxado pelos Estados Unidos, atrás apenas da China. Sharma avalia que o impacto direto dessa medida sobre as exportações brasileiras, que somam cerca de US$ 14,9 bilhões, pode ser mais limitado do que os números sugerem, devido a isenções. No entanto, ele ressalta que os efeitos de "segunda ordem" são mais preocupantes, com potencial impacto sobre o investimento estrangeiro direto. A medida também é vista como a segunda tentativa de Trump de usar tarifas contra o Brasil em 13 meses, sinalizando uma relação "estruturalmente contestada" com o atual governo americano.

## Cenário Eleitoral e Risco Fiscal

No âmbito eleitoral, a imposição das tarifas adiciona complexidade à corrida presidencial de outubro. Sharma sugere que a narrativa de soberania e nacionalismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode ser fortalecida, de forma semelhante ao que ocorreu no México. Contudo, a aprovação do governo Lula é pressionada pelo custo de vida e pelo crescimento econômico fraco, o que pode minar essa vantagem se a economia não reagir. Caso Flávio Bolsonaro (PL) vença, a expectativa é de pressão por concessões rápidas em regulação digital e plataformas de tecnologia em troca da retirada das tarifas, o que traria seus próprios desafios políticos domésticos. Independentemente de quem vença, Sharma prevê que a pressão econômica para negociações com Washington existirá no médio prazo, influenciando a postura negociadora do próximo governo.

## Perspectiva Global e América Latina

Sharma destaca que a América Latina tem atraído o interesse crescente dos investidores, em parte devido à ascensão de governos de direita na região. Sua análise aponta que, historicamente, investidores tendem a obter retornos significativamente maiores sob governos de direita na América Latina. Pesquisas indicam retornos médios de cerca de 16% em dólares nos primeiros dois anos de governos de esquerda, contra mais do dobro, aproximadamente 37%, em governos de direita. O Brasil, segundo o analista, é central nessa dinâmica e representa uma "grande incógnita" para o cenário global de 2026, exigindo uma gestão fiscal prudente diante de um cenário internacional volátil.