Tarifaço Americano: China é Alternativa, Mas com Limites para Exportações

Tarifaço dos EUA pode levar exportadores brasileiros à China, mas diferenças no perfil de compras e barreiras comerciais limitam a substituição de mercado.

Tarifaço Americano: China é Alternativa, Mas com Limites para Exportações

O novo conjunto de tarifas imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros pode impulsionar empresas a buscar novos mercados, com a China, principal parceiro comercial do Brasil, surgindo como uma alternativa. No entanto, analistas econômicos alertam que o país asiático conseguirá absorver apenas uma fração das vendas que eventualmente forem prejudicadas pelas medidas americanas. Essa limitação se deve, em grande parte, às diferenças no perfil das exportações brasileiras para cada um desses mercados e à própria capacidade industrial chinesa.

## Limites para a Expansão na China

Em 2025, o Brasil registrou exportações para a China no valor de US$ 99,94 bilhões (aproximadamente R$ 512 bilhões), superando em mais do dobro as vendas para os Estados Unidos, que somaram US$ 37,7 bilhões (cerca de R$ 192,7 bilhões). No primeiro semestre de 2026, as exportações para a China alcançaram um recorde de US$ 58,32 bilhões (cerca de R$ 299 bilhões), um aumento de 21,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Apesar desses números expressivos, a China não representa uma solução imediata para a totalidade dos produtos afetados pelas tarifas americanas.

Rodrigo Giraldelli, especialista em comércio China-Brasil e CEO da China Gate, observa que as tarifas americanas incidem majoritariamente sobre produtos manufaturados, máquinas e equipamentos. Nesse contexto, a China, sendo um grande produtor e exportador desses mesmos itens, tem uma capacidade limitada de absorver excedentes de produção brasileira, conforme ele mesmo aponta. "O que entra nesse tarifaço são, basicamente, produtos manufaturados, máquinas, equipamentos e esse tipo de coisa. E, nesse caso, a China produz muito e exporta justamente esse tipo de produto", explica.

## Perfil das Exportações e Barreiras Comerciais

A pauta exportadora brasileira para a China é fortemente concentrada em commodities, com soja, petróleo bruto, minério de ferro e carnes respondendo por quase 90% do total. Em contrapartida, os Estados Unidos importam do Brasil uma gama mais diversificada de bens industrializados, como aeronaves, máquinas e produtos siderúrgicos. Essa disparidade dificulta o redirecionamento de empresas que vendem produtos manufaturados para os EUA para o mercado chinês, que demanda predominantemente matérias-primas.

Wagner Pagliato, coordenador de Administração e Ciências Contábeis da Unicid, ressalta que a capacidade de redirecionamento da produção para a China é parcial e varia conforme o setor. Vera Kanas, especialista em comércio internacional, complementa que a China oferece mais oportunidades para produtos agrícolas e minerais, e que muitas das commodities exportadas pelo Brasil para a China não foram diretamente afetadas pelas tarifas recentes. Além disso, o mercado chinês impõe suas próprias restrições, como cotas tarifárias para produtos agropecuários e exigências sanitárias. Desde janeiro de 2026, por exemplo, a carne bovina brasileira está sujeita a uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas, com sobretaxa de 55% para volumes excedentes, devido à ausência de um acordo de livre comércio entre os países.