Recuperação Extrajudicial Dispara: Empresas Buscam Saída para Dívidas
Empresas brasileiras buscam recuperação extrajudicial em número recorde para renegociar dívidas, impulsionadas por juros altos e reforma de 2020.

O número de empresas brasileiras buscando a recuperação extrajudicial para renegociar suas dívidas disparou nos últimos anos. O mecanismo, que permite negociações diretas com credores fora do ambiente judicial, tem sido cada vez mais adotado por companhias de diversos setores, como indústria, mineração, varejo, agronegócio e logística.
Em 2021, foram registrados apenas 16 pedidos de recuperação extrajudicial. Esse número saltou para 84 em 2025, e até o momento em 2026, outras 33 empresas já seguiram o mesmo caminho, segundo dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre). O volume de dívidas envolvidas nesses processos já ultrapassa R$ 109 bilhões em 2026, um aumento significativo em relação aos R$ 41,5 bilhões registrados em 2024.
## Fatores por Trás do Aumento
O principal impulsionador desse crescimento é o cenário de juros elevados no Brasil, com a taxa básica Selic em 14,25% ao ano. Muitas empresas que contraíram empréstimos vultosos durante o período de juros baixos (chegando a 2% ao ano) agora enfrentam dificuldades para honrar seus compromissos. A dívida de R$ 65,1 bilhões da Raízen, por exemplo, chamou atenção como um dos casos emblemáticos.
A reforma da Lei de Recuperação e Falência, aprovada em 2020, também desempenha um papel crucial. A atualização fortaleceu o mecanismo extrajudicial, tornando-o mais flexível e atraente. Segundo especialistas, a reforma permitiu que empresas excluíssem certas classes de credores e iniciassem negociações de dívida antes que a situação se tornasse crítica a ponto de exigir a recuperação judicial.
## Vantagens da Recuperação Extrajudicial
Comparada à recuperação judicial, a extrajudicial é vista como menos custosa e menos prejudicial à reputação da empresa. Enquanto a judicial envolve todos os credores e pode impactar negativamente o acesso a crédito e a continuidade do negócio, a extrajudicial permite negociações focadas em grupos específicos de credores. Uma vez aprovado por maioria simples, o plano se estende aos credores das classes afetadas, mesmo que alguns não concordem.
Casos recentes de grande repercussão, como o das Casas Bahia, Tok&Stok e GPA, destacam a crescente visibilidade e efetividade do mecanismo. A rede varejista Casas Bahia, por exemplo, obteve aprovação para uma recuperação extrajudicial de cerca de R$ 4,1 bilhões sem afetar fornecedores, parceiros ou funcionários. Empresas do agronegócio, um setor com alto endividamento, também têm recorrido a essa alternativa.
## Perspectivas Futuras
Especialistas preveem que a tendência de aumento nas recuperações extrajudiciais deve continuar. A maior preocupação dos investidores com o risco de crédito, somada a conflitos globais e à conjuntura econômica, reforça a busca por soluções financeiras mais ágeis e menos onerosas. Companhias como a Oncoclínicas, líder em tratamento oncológico na América Latina, estariam avaliando o uso do mecanismo, indicando a amplitude do movimento por diferentes áreas da economia brasileira.