Multilaser alerta: Cenário macroeconômico brasileiro preocupa
Multilaser expressa preocupação com cenário macroeconômico brasileiro, criticando juros altos, déficit público e isenção fiscal para importados, que prejudicam varejo e indústria nacional.

A Multilaser, gigante do setor de eletrônicos com faturamento anual de R$ 5 bilhões e mais de 5 mil colaboradores, expressa profunda apreensão em relação ao atual cenário macroeconômico do Brasil. Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho de administração da empresa, destacou em entrevista que as altas taxas de juros e o endividamento crescente das famílias representam obstáculos significativos para o setor de varejo.
## Juros como "camisa de força"
Ostrowiecki comparou os juros a uma "camisa de força" que restringe o desenvolvimento econômico, especialmente o setor produtivo. Ele observou que o consumidor brasileiro está "bastante sufocado", sobrecarregado por dívidas e com restrições de crédito, o que naturalmente leva a uma retração no consumo, principalmente de bens de maior valor agregado e duráveis. Diante desse quadro, a Multilaser tem direcionado sua estratégia para produtos com maior acessibilidade.
## Contas públicas em alerta
O diagnóstico de Ostrowiecki sobre as finanças públicas do país é igualmente preocupante. Ele estima que o déficit primário (despesas maiores que receitas, antes do pagamento de juros) para o ano corrente esteja em torno de 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB), o que se traduz em mais de R$ 50 bilhões. Ao considerar o pagamento de juros da dívida pública, esse déficit salta para aproximadamente 8% do PIB, aproximando-se da marca de R$ 1 trilhão. "O Brasil hoje paga mais juros real do que a Rússia, que está em guerra", comparou o executivo. Ele alertou que a manutenção do ritmo atual pode levar a dívida pública brasileira a superar 100% do PIB já no próximo ano.
O executivo apontou para um problema estrutural que envolve o apetite por gastos governamentais, as emendas impositivas destinadas ao Congresso Nacional – que somam mais de R$ 60 bilhões – e a vinculação de receitas a despesas obrigatórias como fatores que agravam a situação fiscal.
## "Taxa das blusinhas" e concorrência internacional
Ao abordar o fim da chamada "taxa das blusinhas" – a isenção de impostos para compras internacionais de até US$ 50 –, Ostrowiecki apresentou uma visão multifacetada. Ele reconheceu o benefício para consumidores endividados que buscam preços mais baixos. Contudo, argumentou que a isenção para produtos importados da China funciona como um subsídio indireto à indústria estrangeira. "Na verdade, hoje essa política atual virou uma bolsa subsídio para a fábrica chinesa. Nós estamos fazendo protecionismo ao contrário", criticou. Ele exemplificou a situação com uma fábrica de roupas no Ceará que, segundo ele, tem R$ 48 de impostos em um produto de R$ 100, enquanto um concorrente chinês envia o mesmo item isento de impostos. Sua proposta é por isonomia tributária: "Zero proteção para a indústria nacional, zero proteção para a fábrica chinesa, todo mundo paga igual."
## Escala 6x1 e polarização política
Ostrowiecki também se manifestou a favor do fim da escala de trabalho 6x1, defendendo que "a economia tem que servir o ser humano e não o contrário", embora ressalve a necessidade de adaptação gradual para as empresas. Na Multilaser, menos de 15% dos funcionários ainda atuam sob esse regime. Sobre o cenário político, ele defendeu que qualquer governo eleito deveria ser "reformista", focado em equilíbrio fiscal, redução do tamanho do Estado e corte de privilégios. Criticou o que chamou de "anomalia brasileira": o Estado, após tributar e implementar programas sociais, acabar por aumentar a desigualdade. "O nosso Estado é uma máquina de aumentar a desigualdade no Brasil. Isso precisa acabar", concluiu.