Iene em queda livre: analista alerta para desastre iminente
Iene japonês em queda livre, atinge mínimas de 40 anos e analistas alertam para desastre iminente devido à dívida pública e juros baixos. Intervenções cambiais mostram-se ineficazes.

O iene japonês atravessa um período crítico, sendo descrito por analistas como um "desastre em câmera lenta". A moeda atingiu níveis não vistos em quatro décadas e a perspectiva é de novas quedas. Na última segunda-feira, o iene recuou 0,58% em relação ao dólar, sendo negociado a 162,30 ienes por unidade da moeda americana. No acumulado do ano, a desvalorização já soma 3,6%, e em relação a um ano atrás, o iene perdeu quase 11% de seu valor.
Diversos fatores contribuem para a fragilidade da moeda. Um dos gatilhos recentes são as preocupações com o atraso do Japão no combate à inflação, agravado pelo choque de preços do petróleo decorrente do conflito no Irã. Apesar de o Banco do Japão ter elevado as taxas de juros, especula-se que um aperto monetário mais agressivo seja necessário. Paralelamente, a postura mais dura adotada por outros bancos centrais, como o Federal Reserve dos Estados Unidos, torna a política monetária japonesa relativamente mais fraca, impactando diretamente o iene.
## Dívida e Juros Baixos: O Cerne do Problema
Robin Brooks, pesquisador sênior da Brookings Institution, tem alertado para os riscos que cercam a moeda japonesa, destacando a gigantesca dívida do país, que já ultrapassa 240% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo Brooks, o Banco do Japão tem mantido os rendimentos dos títulos públicos artificialmente baixos para evitar que o custo dos juros sobre essa dívida se torne insustentável. Essa estratégia, contudo, mascara o risco de uma crise fiscal que, em circunstâncias normais, se manifestaria através de juros mais elevados.
Essa política de juros baixos desincentiva investidores a manterem seus ativos no Japão, pressionando o iene para baixo. Embora um iene desvalorizado possa beneficiar as exportações japonesas, ele também pode gerar atritos comerciais, especialmente com os Estados Unidos, em um momento em que o governo americano busca reduzir seu déficit comercial. Além disso, a moeda mais fraca encarece as importações, o que agrava a inflação em um país altamente dependente de energia externa.
## Intervenções Insuficientes
Para tentar frear a desvalorização acentuada, Tóquio tem realizado intervenções pontuais no mercado, gastando dezenas de bilhões de dólares em abril e maio. No entanto, essas ações se mostraram insuficientes para reverter a tendência de queda. Nem mesmo as declarações verbais do governo, indicando prontidão para agir quando necessário, surtiram efeito relevante.
Brooks considera as intervenções cambiais do Japão "condenadas ao fracasso", pois tratam apenas o sintoma – a desvalorização do iene – e não a causa raiz, que seria o excesso de dívida. Ele argumenta que essas intervenções criam uma falsa sensação de normalidade, enquanto uma crise séria se forma. A ameaça constante de intervenção ainda impede quedas mais drásticas, mas essa calma aparente é enganosa e insustentável, pois as intervenções têm se mostrado cada vez menos eficazes.
## Perspectivas Sombrias
O pesquisador prevê que chegará um momento em que o mercado ignorará as intervenções. Enquanto o Banco do Japão continuar a impedir que os rendimentos dos títulos reflitam o risco fiscal real do país, o iene permanecerá sob pressão, e as intervenções se tornarão cada vez mais inúteis. Alguns analistas já apontam que o iene pode atingir 170 ienes por dólar.
Em contraste com a moeda, o índice acionário japonês Nikkei 225 tem apresentado forte valorização, superando o S&P 500 americano. Normalmente, essa alta nas ações impulsionaria a demanda por ienes, mas operadores têm realizado hedge cambial intensivo, mantendo a pressão de baixa sobre a moeda. A situação atual sugere que Tóquio está preso a uma estratégia ineficaz, onde as intervenções cambiais se tornam um "exercício de inutilidade", segundo alguns especialistas, como forma de evitar uma desvalorização descontrolada que poderia afetar também títulos e ações. O risco de uma mentalidade de "venda Japão" paira no horizonte.