IA inflaciona imóveis na Califórnia e expulsa famílias

Profissionais de IA impulsionam recordes imobiliários em São Francisco com salários e ações, expulsando famílias locais e tornando a cidade a mais cara dos EUA.

IA inflaciona imóveis na Califórnia e expulsa famílias

Profissionais das gigantes de inteligência artificial (IA) OpenAI e Anthropic estão impulsionando uma alta vertiginosa nos preços imobiliários em São Francisco, Califórnia, levando a cidade a se tornar a mais cara dos Estados Unidos para compradores de imóveis. A situação tem resultado na expulsão de famílias de suas casas e na transformação do mercado local.

Em bairros como Duboce Triangle, um apartamento de três dormitórios luxuosamente reformado está à venda por quase US$ 3 milhões (mais de R$ 15 milhões). O que chama a atenção é a possibilidade de pagamento com ações das empresas de IA, uma forma incomum que reflete o poder financeiro desses profissionais. Um funcionário da OpenAI, que se mudou para a cidade há dois anos, considera essa opção para adquirir seu imóvel.

São Francisco se consolidou como o epicentro da revolução da IA, e os preços imobiliários dispararam. Em março deste ano, a cidade recuperou o título de local mais caro para compra de imóveis nos EUA, superando São Jose. O preço médio das casas em São Francisco subiu 19% em relação ao ano anterior, com altas de 14,5% e 14,1% em abril e maio, respectivamente. Em maio de 2026, o valor médio de venda atingiu um recorde de US$ 1,76 milhão, contrastando com os quase US$ 400 mil registrados nos EUA como um todo.

## O impacto do dinheiro da IA no mercado

A economia local atribui essa escalada principalmente ao fluxo de dinheiro proveniente do setor de IA. Daryl Fairweather, economista-chefe da Redfin, confirma que os dados e os relatos de agentes imobiliários apontam para essa tendência, especialmente nos imóveis de luxo da região da Baía de São Francisco desde o lançamento do ChatGPT no final de 2022. Esse aquecimento reverteu a recessão imobiliária que a cidade enfrentou durante a pandemia de Covid-19.

Os salários e bônus de contratação oferecidos aos profissionais de IA são extraordinários, mesmo para os padrões do Vale do Silício. Além disso, opções de ações, que podem ser resgatadas, aumentam o poder de compra. No ano passado, mais de 600 funcionários da OpenAI venderam ações totalizando US$ 6,6 bilhões, com uma média de US$ 11 milhões por pessoa. Na Anthropic, funcionários também foram autorizados a vender ações avaliadas em cerca de US$ 6 bilhões.

Com ambas as empresas planejando aberturas de capital na bolsa ainda este ano ou no próximo, a expectativa é de que mais funcionários se tornem multibilionários, impulsionando ainda mais o mercado imobiliário. "A guerra de preços de hoje será vista como pechincha, e já é", afirma Rachel Swann, corretora responsável por um imóvel no bairro de Duboce Triangle.

## Desafios e perspectivas futuras

Contudo, existem fatores que podem frear essa ascensão. Enrico Moretti, professor de economia na UC Berkeley, ressalta que o boom da IA ainda está em seus estágios iniciais. Embora a população e o emprego estejam crescendo, ainda não atingiram os níveis pré-pandemia. Demissões em massa em outras grandes empresas de tecnologia, como a Meta, e a transição da indústria de IA para um modelo mais consolidado, que pode demandar trabalhadores menos especializados, são desafios a serem considerados. Além disso, Moretti aponta que a maior parte da riqueza das futuras IPOs irá para investidores, e não apenas para funcionários, e que as empresas têm operações em diversas partes do mundo.

Apesar desses contrapontos, a realidade atual é de um mercado imobiliário extremamente aquecido, que está tornando a vida em São Francisco inacessível para muitas famílias.