Estudo Revela Inconsistências em Estimativas de Riscos Fiscais do Governo

Estudo do Insper aponta falhas em estimativas de riscos fiscais do governo, com falta de transparência e inconsistências metodológicas, dificultando a avaliação de passivos que afetam as contas públicas da União.

Estudo Revela Inconsistências em Estimativas de Riscos Fiscais do Governo

Um estudo recente do Insper, núcleo de tributação, lançou luz sobre inconsistências e falta de transparência nas estimativas de riscos fiscais apresentadas anualmente pelo governo ao Congresso Nacional. O Anexo de Riscos Fiscais (ARF), parte integrante da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), tem a função de projetar o impacto financeiro de ações judiciais e outros passivos que podem onerar os cofres públicos. No entanto, a pesquisa, coordenada por Vanessa Rahal Canado e assinada também por Maria Raphaela Matthiesen e Breno Vasconcelos, analisou dez anos desses anexos e identificou falhas metodológicas que impedem uma avaliação precisa da real dimensão desses riscos para a União.

## Falhas na Mensuração de Passivos

O levantamento destaca que, mesmo com o Anexo de Riscos Fiscais da LDO de 2025 estimando passivos potenciais em R$ 729,9 bilhões – aproximadamente 6% do Produto Interno Bruto (PIB) –, a pesquisa aponta que este número pode estar incompleto. Um dos principais pontos de crítica é a omissão de estimativas de impacto financeiro para nove disputas tributárias relevantes que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Segundo Vanessa Rahal Canado, essa ausência de dados torna impossível determinar se a estimativa apresentada pelo governo está super ou subdimensionada, caracterizando um potencial "bomba fiscal" sem a devida dimensão.

## Origem da Estimativa e Falta de Transparência

A investigação sobre a metodologia de cálculo dessas estimativas remonta a 2016, durante o debate da chamada "Tese do Século" sobre a incidência de ICMS na base de cálculo do PIS e da Cofins. Na ocasião, falava-se em um custo potencial de R$ 250 bilhões aos cofres públicos caso a União perdesse a disputa. Ao tentar rastrear a origem dessa estimativa, os pesquisadores enfrentaram dificuldades, com a Receita Federal alegando não encontrar a fonte dos cálculos, segundo Breno Vasconcelos. Os documentos só foram liberados após intervenção da Controladoria-Geral da União (CGU).

## Metodologias e Divulgação de Dados

Além da origem incerta, o estudo aponta problemas nos métodos de elaboração das estimativas. Em alguns casos, as premissas utilizadas nos cálculos não refletem adequadamente a repercussão financeira de decisões desfavoráveis ao governo. Outra questão jurídica levantada é a recente portaria da Advocacia-Geral da União (AGU) que estabeleceu o fim da divulgação de dados individualizados sobre riscos fiscais. Essa medida, segundo os pesquisadores, impede que os contribuintes, diretamente interessados, possam verificar e contestar os números apresentados, comprometendo a transparência e o acesso à informação.

## Respostas Institucionais

A Receita Federal não comentou as conclusões do estudo. O Ministério do Planejamento informou não ser o responsável pelo relatório. A AGU, por sua vez, declarou que o formato de divulgação das informações foi revisado para evitar o uso indevido de dados sobre a exposição da União a riscos fiscais judiciais, que prejudicava a defesa do órgão e suas entidades vinculadas. A AGU argumentou que o formato anterior permitia a individualização de ações e temas, o que poderia revelar a expectativa de condenação e impactar negativamente a "paridade de armas" entre as partes.