Estudo do Insper questiona cálculos de risco fiscal da União

Estudo do Insper aponta inconsistências e falta de transparência na metodologia do governo para calcular riscos fiscais bilionários de disputas tributárias.

Estudo do Insper questiona cálculos de risco fiscal da União

Um estudo divulgado pelo Núcleo de Tributação do Insper levanta sérias dúvidas sobre a metodologia utilizada pelo governo federal para estimar os riscos fiscais associados às disputas tributárias. A pesquisa, que analisou os Anexos de Riscos Fiscais (ARFs) das Leis de Diretrizes Orçamentárias (LDOs) entre 2016 e 2026, conclui que a forma como a União calcula o impacto dessas ações carece de transparência, apresenta inconsistências e compromete a confiabilidade de estimativas que somam bilhões de reais.

## Falta de Clareza nos Números

Os ARFs são documentos essenciais onde o governo federal detalha o potencial custo para os cofres públicos de decisões judiciais desfavoráveis, especialmente no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Essas estimativas também servem de base para argumentos da Advocacia-Geral da União (AGU) em processos de grande vulto financeiro. No entanto, o estudo do Insper aponta que a falta de justificativas claras para as variações nesses valores dificulta a compreensão do real passivo fiscal.

## Variações Bilionárias Sem Explicação

O levantamento do Insper revelou oscilações expressivas nos valores estimados de risco fiscal. Em 2020, o risco relacionado a disputas tributárias foi calculado em R$ 1,5 trilhão (20% do PIB), caindo para R$ 729,9 bilhões (6% do PIB) cinco anos depois. Contudo, os pesquisadores alertam que essa redução não indica necessariamente uma diminuição das disputas. A preocupação reside na falta de transparência sobre como esses números são gerados. Mudanças bilionárias nas estimativas, a inclusão de processos sem valor definido e metodologias não verificáveis foram identificadas ao longo da série histórica.

## Exemplos Concretos de Inconsistências

Um exemplo citado no estudo é a discussão sobre a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da Cofins. A estimativa para esse tema saltou de R$ 101,7 bilhões para R$ 229 bilhões em apenas um ano, sem uma explicação pública detalhada para a revisão. Similarmente, a discussão sobre créditos tributários de PIS e Cofins viu sua estimativa aumentar de R$ 250 bilhões para R$ 316 bilhões. O governo não apresentou justificativas para tais revisões, segundo a pesquisa.

## Crescimento de Casos sem Estimativa

Outro ponto de atenção é o aumento no número de processos classificados com impacto fiscal "não disponível". Enquanto a LDO de 2021 registrava apenas um caso sem estimativa, o número subiu para 22 em 2022 e manteve-se elevado nos anos seguintes. O estudo ressalta que essa omissão compromete a transparência e pode infringir normas da AGU, que exige a divulgação proativa de informações sobre metodologia e bases de dados.

## Dificuldades na Obtenção de Dados

Ao solicitar informações à Receita Federal do Brasil (RFB) via Lei de Acesso à Informação (LAI), os pesquisadores do Insper encontraram ainda mais obstáculos. Relataram que, em alguns casos, as estimativas foram baseadas em metodologias "em fase de apuração" ou que a documentação disponível tratava de temas diferentes dos listados pelo próprio governo. O relatório final conclui que essas inconsistências impedem uma avaliação segura dos riscos fiscais e defende a necessidade de maior transparência.