Empresas Brasileiras Promovem Infantilização Organizacional

Especialista critica a 'infantilização organizacional' em empresas brasileiras, onde o discurso de cultura contrasta com práticas que minam a autonomia e impedem o crescimento.

Empresas Brasileiras Promovem Infantilização Organizacional

A cultura organizacional é frequentemente citada por empresas brasileiras como um valor fundamental, presente em discursos e apresentações. Contudo, a prática raramente reflete um ambiente onde profissionais são tratados como adultos capazes de tomar decisões, errar e aprender. Este cenário, denominado por especialistas como "infantilização organizacional", representa um dos maiores entraves ao desenvolvimento sustentável das companhias no país.

Louis Burlamaqui, especialista em cultura organizacional e capital humano com vasta experiência no mercado, critica a discrepância entre os resultados almejados e as estruturas mantidas. "A maioria das empresas quer os resultados de uma cultura de alto desempenho, mas mantém estruturas que contradizem esse objetivo. Processos que não confiam nas pessoas, lideranças que controlam em vez de desenvolver, comunicação que informa em vez de engajar. Isso não é cultura organizacional. É gestão por aparência", afirma.

## Impacto nos Resultados e Talentos

A falta de coerência entre o discurso e a prática afeta diretamente os resultados empresariais. Uma pesquisa recente da Great Place to Work indicou que o mercado de trabalho está mais competitivo e a mão de obra mais exigente. Empresas que não demonstram alinhamento entre o que pregam e o que praticam enfrentam dificuldades crescentes na atração e retenção de talentos.

Burlamaqui destaca que o problema inicial reside na confusão entre cultura e comunicação. Muitas organizações investem em branding interno e programas de engajamento, mas persistem com hierarquias rígidas, pouca autonomia e lideranças despreparadas para lidar com diversidade. "Cultura não é o que a empresa diz que é. É o que as pessoas experimentam todos os dias. E quando o que se experimenta é controle excessivo, falta de voz e ausência de confiança, nenhum programa de engajamento resolve. O problema está na estrutura, não na comunicação", ressalta o especialista.

## Manifestações e Soluções Estruturais

A infantilização se manifesta de diversas formas: excesso de aprovações para decisões simples, reuniões informativas sem envolvimento, metas impostas sem consulta, e feedback restrito à avaliação anual. Essas práticas comunicam à organização a falta de confiança nos colaboradores, levando a consequências como queda de produtividade, alta rotatividade, dificuldade em inovar e dependência excessiva da liderança.

"Quando uma empresa precisa de aprovação de três níveis hierárquicos para tomar uma decisão operacional, ela não tem um problema de processo. Ela tem um problema de cultura. E enquanto não nomear isso, vai continuar tentando resolver com tecnologia ou com mais reuniões o que só se resolve com confiança", pontua Burlamaqui.

A solução proposta pelo especialista envolve uma mudança estrutural, redesenhando processos decisórios, desenvolvendo lideranças de forma genuína e criando ambientes onde discordância e autonomia são valorizadas. "Uma organização que infantiliza seus profissionais não vai conseguir reter os melhores, não vai conseguir inovar e não vai conseguir escalar. Porque escalar exige confiar nas pessoas que estão na operação. E confiança não se declara. Se constrói no dia a dia", conclui.